InícioReviewsReview: Wardrum – Ritmo, Tática e Repetição, será que vale apena?

Review: Wardrum – Ritmo, Tática e Repetição, será que vale apena?

Uma mistura ousada entre estratégia em grelha e precisão rítmica, mas será que o roguelite acaba estragando a festa?

Quando um jogo se propõe a misturar combate tático por turnos com mecânicas de jogo rítmico, é fácil torcer o nariz. Parece aquela ideia que alguém teve numa mesa de bar depois da terceira cerveja. E ainda assim, Wardrum — desenvolvido por um estúdio finlandês que claramente adora desafiar géneros — consegue, na maior parte do tempo, fazer essa colagem funcionar. Não sem alguns tropeços.

Gráficos: Pixel art com personalidade e um toque de fantasia trash

Visualmente, Wardrum é um prato cheio para quem cresceu com os RPGs táticos dos anos 90, mas com uma camada de verniz moderno. Os cenários em 3D contrastam com personagens e props construídos em pixel art “crocante” — aqueles blocos bem definidos que lembram Octopath Traveler sem a pretensão cinematográfica. A estética é deliberadamente inspirada em seriados como Xena e Hércules: armaduras exageradas, criaturas esquisitas e uma paleta de cores que oscila entre o vibrante e o soturno. Há um charme artesanal nisso.

As animações de ataque, especialmente quando acertas o ritmo certinho, têm um feedback visual satisfatório — o ecrã treme levemente, partículas voam, o inimigo recua. Mas não é tudo flores: alguns cenários repetem-se mais do que deviam, e a câmara, que oferece três níveis de zoom (superior, médio e inferior), pode dar a sensação de claustrofobia. Não é algo que quebre a experiência, mas nota-se. Pequenos deslizes de clipping entre personagens e o cenário também aparecem — típico de equipas pequenas.

Som: O coração do jogo, literalmente

A banda sonora é o ponto alto indiscutível. Como o nome sugere, tambores de guerra dominam as faixas, com camadas rítmicas que te obrigam a balançar a cabeça enquanto planeias a próxima movimentação. E não é só enfeite — o gameplay rítmico exige precisão cirúrgica. Cada ação ofensiva ou defensiva é mapeada num padrão de botões que segue a batida. Um ataque básico com arco e flecha, por exemplo, funciona assim: primeiro pressionas para puxar a flecha da aljava, seguras e manténs para desenhar a corda, e soltas exatamente no tempo para disparar. Poderes mais complexos exigem sequências de três ou quatro toques, algumas até com pausas no meio.

O sistema é surpreendentemente responsivo. Quando falhas, é quase sempre culpa tua — o jogo não inventa lag nem atrasos artificiais. Os efeitos sonoros de cada impacto, esquiva ou falha rítmica são distintos e informativos. Dá até para jogar de olhos semi-cerrados em fases mais fáceis, guiando-te apenas pelo áudio. O problema? A repetição. Após algumas horas, certos padrões rítmicos começam a soar familiares demais, e a novidade desaparece. Ainda assim, para um jogo indie, o nível de produção sonora é de gabarito.

Jogabilidade: Onde o ritmo dança (e tropeça) com a tática

Wardrum é, na sua essência, um roguelite tático baseado em turnos. Controlas uma tribo que se desloca num tabuleiro isométrico, enfrentando inimigos num sistema de grelha. Até aqui, nada de novo. A reviravolta é que cada ação — atacar, usar item, defender — activa uma sequência de botões que tens de executar no ritmo da música de fundo. Quanto melhor o teu timing, maior o dano ou efeito. Errar significa ataque enfraquecido ou, pior, perda de turno.

Isto adiciona uma camada de tensão que muitos jogos de estratégia não têm. Normalmente, num RPG tático, podes demorar dois minutos a decidir o próximo movimento. Aqui, a pressão rítmica acelera o teu coração. O posicionamento pré-batalha — podes colocar cada herói numa zona específica do mapa antes do confronto — é um toque inteligente que recompensa planeamento. Terrenos com buffs, armadilhas, jaulas com criaturas neutras que fogem e atacam o alvo mais próximo… há variedade tática de sobra.

No entanto, dois problemas saltam à vista. O primeiro: o sistema de controlo troca constantemente entre prompts visuais de Xbox e PlayStation. Numa review técnica, isso é um bug irritante. Numa sessão normal, leva a apertar o botão errado no meio de um ritmo frenético. O segundo problema, mais grave, é a inclusão de elementos roguelite. Se estás à procura de uma história linear com progressão narrativa constante, prepara-te para a frustração. Cada morte significa recomeçar quase do zero, com upgrades permanentes mínimos. Para quem gosta de grind e optimização de builds, ótimo. Para quem quer saber o que acontece a seguir na história, é um balde de água fria. A sensação de “trabalho perdido” é real, e a estrutura roguelite parece por vezes uma muleta para esticar a duração artificialmente.

História: Fio narrativo fino, quase transparente

A premissa é simples: uma tribo que baseia a sua existência nos tambores enfrenta ameaças num mundo fantástico. O humor está presente, mas é irregular — algumas piadas funcionam, outras caem no vazio. Os personagens são archetypes básicos: o guerreiro bruto, a arqueira ágil, o bardo confuso. Não espere reviravoltas emocionantes ou dilemas morais. A história serve apenas como desculpa para justificar os combates. “Vai ali buscar X porque senão morres todos”. Ponto final.

Para jogadores que priorizam narrativa, Wardrum decepciona. A estrutura roguelite obriga a repetir diálogos introdutórios vezes sem conta, o que rapidamente cansa. Dá para perceber que os desenvolvedores focaram os recursos no gameplay e no áudio, deixando o enredo em segundo plano. Não é um crime, mas é um aviso.

Conclusão: Recomendo ou não?

Wardrum é um jogo de contrastes. A fusão entre ritmo e estratégia é executada com precisão e criatividade rara. Os gráficos pixel art são agradáveis, a música é cativante, e a jogabilidade tática tem profundidade suficiente para manter entusiastas do género ocupados por dezenas de horas. Os bugs de sobreposição de comandos entre controladores e a câmara ocasionalmente limitada são incómodos, mas não fatais.

O grande divisor de águas é o modelo roguelite. Se gostas de repetir fases, optimizar builds e não te importas com histórias rasas ou interrompidas, este jogo é uma recomendação forte. Se, como eu, valorizas progressão narrativa e detestas recomeçar do zero por causa de um erro rítimico numa batalha longa, então Wardrum vai testar a tua paciência.

No estado atual, recomendo com ressalvas: compra em promoção, experimenta com a mente aberta, e não esperes uma epopeia. É um ótimo conceito com problemas de execução estrutural. E sim, a troca de controlos Xbox/PS é algo que devia ser corrigido ontem. Para jogos do género, Fretless continua sendo uma referência superior, mas Wardrum tem mérito próprio — sobretudo para quem quer algo diferente do habitual. Só não digas que não avisei sobre a repetição.

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Apaixonado por games desde sempre, tive o prazer de acompanhar grande parte da evolução dos games. RPG, Ação, Aventura, FPS, etc jogo de tudo.

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