Uma imersão sombria que mistura horror psicológico com RPG de turno, mas será que entrega tudo o que promete?
Quando se fala em jogos da Idea Factory e Compile Heart, é comum esperar aquela mescla característica de elementos visuais marcantes, sistemas de batalha criativos e narrativas que oscilam entre o leve e o perturbador. Com Death end re;Quest 2, a dupla de desenvolvedores decidiu aprofundar ainda mais a veia terrorífica que já se fazia presente no primeiro título, entregando uma experiência que não tem medo de explorar temas pesados como abuso psicológico, trauma familiar e as consequências devastadoras do isolamento emocional. Mas será que essa aposta em um tom mais sombrio e denso funciona a contento, ou o jogo tropeça em suas próprias ambições? Vamos destrinchar cada aspecto técnico e narrativo para entender o que essa continuação realmente oferece.
A Estrutura Narrativa Entre o Cotidiano e o Terror
Situado na pacata cidade de Le Choara, Death end re;Quest 2 coloca o jogador no controle de Mai Toyama, uma jovem que carrega consigo um passado brutal de violência doméstica e abandono. Sua motivação inicial é encontrar a irmã mais nova, Sanae, que desapareceu misteriosamente após ser enviada para um dormitório feminino administrado pela enigmática organização “Ritzshvara”. O que começa como uma investigação pessoal rapidamente se transforma em algo muito maior, envolvendo criaturas monstruosas, realidades paralelas e a constante ameaça de perda permanente de personagens queridos.

Um ponto que merece destaque é a estrutura de dia e noite que o jogo adota. Durante o período diurno, a experiência se aproxima mais de um romance visual, com longos diálogos focados no desenvolvimento dos personagens e na construção do suspense psicológico. É nessas horas que a trama respira, permitindo que o jogador absorva as nuances emocionais de cada integrante do elenco. A atmosfera enganosamente tranquila desses momentos contrasta drasticamente com o que vem a seguir.
Quando a noite cai, a cidade se transforma em um pesadelo vivo. Os corredores antes familiares do dormitório dão lugar a masmorras distorcidas, repletas de inimigos grotescos e uma sensação opressiva de perigo iminente. Essa transição não é meramente estética; ela serve como um reflexo direto dos conflitos internos das personagens, transformando medos abstratos em desafios concretos. No entanto, essa divisão tem seus custos. Jogadores que buscam uma ação mais constante podem sentir que os segmentos narrativos se arrastam excessivamente, enquanto os fãs de histórias densas talvez achem que as incursões noturnas interrompem o fluxo da trama em momentos cruciais.
Vale mencionar que Death end re;Quest 2 não tem receio de abordar assuntos desconfortáveis. A escrita, assinada por祁答院慎 (conhecido por seu trabalho na série Corpse Party), utiliza o horror não como um mero adorno, mas como uma ferramenta para explorar as feridas emocionais das personagens. O resultado é uma narrativa que consegue ser ao mesmo tempo angustiante e cativante, ainda que ocasionalmente recorra a arquétipos familiares do gênero anime. A protagonista Mai é o grande destaque nesse aspecto, com sua personalidade marcada por inseguranças e momentos de vulnerabilidade que a tornam excepcionalmente humana, mesmo em meio a circunstâncias sobrenaturais.

Sistema de Combate: Inovação e Limitações
Quando a noite chega e a batalha se torna inevitável, o jogador tem acesso a um sistema de combate que tenta inovar dentro dos padrões dos JRPGs tradicionais. O grande trunfo de Death end re;Quest 2 é o chamado “Sistema de Ação Tripla”, que permite ao personagem executar até três ações por turno. Isso inclui ataques físicos, habilidades especiais, defesa e uso de itens, abrindo espaço para estratégias mais elaboradas durante os confrontos.
A mecânica de knockback, herança do primeiro jogo, também retorna com força total. Ao utilizar golpes com efeito de repelência, os inimigos são lançados pelo cenário, colidindo contra paredes, obstáculos e até mesmo outros adversários. Essa dinâmica lembra uma partida de sinuca, onde o posicionamento e o ângulo dos golpes fazem toda a diferença. Quando bem executado, o sistema recompensa o jogador com danos adicionais significativos, transformando batalhas comuns em quebra-cabeças táticos momentaneamente envolventes.
Contudo, a evolução desse sistema ao longo da campanha deixa a desejar. Passadas as primeiras horas, a sensação é de que o potencial da mecânica não foi totalmente explorado. Os confrontos tendem a se repetir, com poucas variações que exijam adaptação real por parte do jogador. Além disso, a curva de dificuldade apresenta picos abruptos, especialmente em chefes que demandam grind ou preparação específica, o que pode interromper o ritmo da progressão natural. O modo automático, disponível durante as batalhas, muitas vezes é suficiente para superar a maioria dos encontros comuns, o que pode ser interpretado tanto como uma facilidade bem-vinda para quem prioriza a história quanto como um sintoma de subutilização do sistema.
A implementação das transformações, conhecidas como “BUG Mode”, adiciona uma camada de poder temporário que pode virar o jogo a seu favor. Ao acumular poluição no campo de batalha, o jogador pode desbloquear essa forma aprimorada, aumentando drasticamente o dano causado. É uma ferramenta útil para momentos de aperto, mas sua ativação não requer um planejamento elaborado, o que reduz um pouco o impacto estratégico que poderia ter.
Aspectos Técnicos: Gráficos, Som e Performance
Visualmente, Death end re;Quest 2 carrega a assinatura característica dos estúdios envolvidos. As ilustrações dos personagens são detalhadas e expressivas, especialmente durante as sequências de diálogo, onde as emoções são transmitidas com clareza. As cores e o design dos cenários noturnos conseguem evocar a atmosfera opressiva que o jogo busca, ainda que os ambientes das masmorras sofram com certa repetição e falta de variedade. Em alguns momentos, a impressão é de que os corredores se misturam, prejudicando a imersão em um mundo que deveria ser claustrofóbico e perturbador.

A trilha sonora cumpre bem seu papel em reforçar as mudanças tonais da narrativa. Durante o dia, as faixas são mais suaves e reflexivas, enquanto a noite é acompanhada por composições tensas e carregadas de dissonância. Embora funcionem dentro do contexto, poucas músicas se destacam individualmente como memoráveis, algo que fãs de trilhas sonoras de JRPG podem considerar uma pequena decepção.
Em termos de performance, Death end re;Quest 2 se mostra estável. Não foram observados crashes ou bugs graves que comprometessem a experiência, o que já é um ponto positivo considerando a complexidade de alguns sistemas implementados. A localização para o inglês e outros idiomas é competente, preservando o tom sombrio e emocional das falas originais em japonês, disponíveis com legendas.
Considerações Finais e Recomendação
Death end re;Quest 2 é um jogo que desafia classificações fáceis. Ele se posiciona em um território ambíguo entre o romance visual e o RPG de ação, sem jamais se comprometer totalmente com um ou outro. Para aqueles que apreciam narrativas densas e não se importam com longas sessões de leitura, o jogo oferece uma história envolvente e corajosa, que aborda temas sérios com maturidade e sensibilidade.
Por outro lado, jogadores que priorizam a jogabilidade e a evolução mecânica podem sentir que o título fica devendo nesse aspecto. O sistema de combate é criativo, mas falta profundidade para sustentar as dezenas de horas de campanha. Os picos de dificuldade e as limitações na exploração dos cenários noturnos também são fatores que pesam contra a experiência geral.
Se você já jogou o primeiro Death end re;Quest e apreciou sua abordagem única, esta continuação certamente vale a pena, ainda que apresente suas próprias idiossincrasias. Para novos jogadores, no entanto, a recomendação é começar pelo título original, que oferece uma introdução mais gradual ao universo e aos sistemas que regem essa franquia peculiar. Dito isso, Death end re;Quest 2 se mantém como uma obra interessante e corajosa dentro do catálogo da Idea Factory, capaz de agradar tanto fãs de horror psicológico quanto aqueles que buscam algo diferente do convencional nos JRPGs contemporâneos.
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