Quando a nostalgia encontra a frustração: um clássico que não perdoa
Lá vamos nós de novo, sentar na cadeira, encostar os dedos nos botões e tentar sobreviver mais de trinta segundos em R-Type Dimensions III. Essa franquia sempre teve uma reputação meio pesada entre os fãs de shoot ’em up, e essa nova versão não faz questão de esconder as garras. Na verdade, ela parece até provocar o jogador. “Ah, você achou que ia ser mais fácil porque os gráficos estão bonitos? Engane-se, amigo.”
A primeira coisa que salta aos olhos — e isso qualquer um percebe nos primeiros cinco minutos — é que o jogo não foi feito para agradar todo mundo. Ele foi feito para quem gosta de sofrer com método, de decorar padrão de tiro, de perder a mesma nave no mesmo lugar umas quarenta vezes seguidas e ainda assim voltar pedindo mais. E sabe o que é pior? Funciona. Mas funciona com ressalvas, e muitas delas.

Gráficos: quando o 3D brilha e atrapalha ao mesmo tempo
Visualmente, R-Type Dimensions III é um prato cheio para quem acompanhou a série lá atrás, nos arcades e Super Nintendo. A transição dos sprites bidimensionais para um ambiente tridimensional foi feita com um cuidado que merece destaque. As naves, os inimigos biomecânicos, aquela atmosfera nojenta e úmida de carne com metal — tudo isso ganhou camadas, reflexos e animações que realmente impressionam.
O jogo permite alternar entre o visual clássico (aquele pixelzão bruto) e o moderno em tempo real, com um aperto de botão. É daquelas firulas que pouca gente usa depois dos primeiros dez minutos, mas que mostra o carinho técnico da equipe. O problema começa quando a beleza atrapalha a jogabilidade. Em certos momentos, especialmente nas fases mais iluminadas ou com muitos projéteis em tela, os efeitos de luz e partículas acabam poluindo a visão. Você não morre porque desviou errado; morre porque não enxergou o tiro perdido no meio da explosão bonita.
Outro ponto chato: a sensação de que o hitbox da sua nave não acompanha direito o modelo 3D. Parece que você tá colidindo com coisas que, pela margem visual, deveria ter passado raspando. Isso é fatal num jogo onde um toque significa recomeçar a fase (a não ser que você use o tal do modo infinito, mas vamos falar disso depois).
Sons: acertos e esquecimentos
No quesito áudio, R-Type Dimensions III acerta em cheio na nostalgia. As músicas clássicas foram remasterizadas com orquestração nova, mantendo aquela tensão constante de quem tá atravessando um cemitério espacial cheio de bichos que querem te sugar pelas entranhas. Os efeitos sonoros dos tiros, do Force (aquela bolha/escudo/arma que acompanha sua nave) e das explosões têm peso, têm impacto.
Mas nem tudo são flores. Alguns sons de inimigos menores parecem sumir na mixagem quando o caos se instala. Você destrói um grupo de cinco ou seis inimigos de uma vez e percebe que o estouro veio baixo demais, como se tivesse estourado uma bolha ao invés de uma criatura gigante. A trilha também sofre de loops meio abruptos em determinadas fases, dando aquela sensação de que o arquivo de áudio foi cortado sem muito critério.
Ah, e a dublagem/piloto? Não tem. Não espere vozes ou narrações dramáticas. O jogo se comunica com você através de buzinas, alarmes e o silêncio gelado do espaço. Pra proposta, funciona. Mas quem espera um storytelling sonoro mais elaborado vai sair de mãos abanando.

Jogabilidade: onde o bicho pega (e pega feio)
Vamos ser diretos: R-Type Dimensions III é difícil. Não daquele difícil gostoso que ensina e recompensa. É difícil daquele tipo que às vezes parece injusto. A mecânica central segue o molde clássico: você controla uma nave, coleta cápsulas de poder, gerencia o seu Force (que pode ficar na frente ou atrás da nave, absorvendo tiros e dando dano) e carrega o devastador tiro Beam. Tudo isso enquanto desvia de paredes, asteroides, e um enxame de inimigos que não para de nascer.
A grande novidade aqui é o sistema de duas armas carregáveis: o Beam tradicional, que solta aquele laserzão varre-tudo, e o Hyper, que dá um surto de poder temporário transformando sua nave numa metralhadora cósmica. Na teoria, é maneiro. Na prática, o Hyper deixa você vulnerável por um tempinho depois que acaba, e é nessa janela que o jogo adora te matar.
A física continua aquela coisa meio deslizante, como se a nave tivesse um pouco de inércia a mais do que deveria. Não é tão responsiva quanto Gradius ou Darius, mas também não chega a ser travada. Dá pra acostumar.
O problema maior — e aqui vai um desabafo técnico — é que o jogo apresenta bugs de colisão em alguns cenários. Em mais de uma rodada, meu Force ficou preso dentro de uma parede que não deveria ter colisão, me obrigando a morrer pra resetar o equipamento. Outra vez, numa fase com corredores giratórios, a nave simplesmente explodiu sozinha ao tocar uma borda que visualmente estava livre. Isso tira parte do mérito do desafio. Morrer por erro seu é doloroso mas justo; morrer por bug é só frustrante.
O modo infinito (vidas infinitas) existe, e ele salva a sanidade de muitos jogadores. Mas os puristas vão torcer o nariz, claro. A verdade é que sem ele, pouca gente chegaria na metade do jogo.
História: simples e direta, quase uma desculpa
Se você veio atrás de enredo profundo, reviravoltas ou dramas intergalácticos, R-Type Dimensions III não é seu lugar. A premissa é clássica: uma raça alienígena chamada Bydo (aquela mistura nojenta de bio-engenharia com metal) tá dominando o espaço, e sua nave, a R-90, é a única esperança da humanidade. Fim. Não espere cutscenes elaboradas ou diálogos. O jogo te dá duas telas de texto entre as fases e te empurra de volta pro combate.
A novidade é que agora o jogo conta com legendas em português (sim, traduzido!), o que é um alívio pra quem passou décadas apertando start sem entender nada. Mas convenhamos: mesmo traduzido, não tem muito o que entender. Aliens maus, você bom, atire neles. Pra um shmup, tá mais do que suficiente.

Considerações finais: vale a pena ou nem?
Olha, R-Type Dimensions III é um produto de amor e ódio. Amor pela estética, pela brutalidade clássica, por aquela sensação de finalmente passar de uma fase depois de duas horas tentando. Ódio pelos bugs de colisão, pelo hitbox traiçoeiro, pela dificuldade que às vezes beira o sadismo. Não é um jogo pra qualquer um. Se você é novo no gênero, comece por outro lugar — R-Type vai te moer e te fazer desistir antes da segunda fase.
Agora, se você é fã raiz, se cresceu decorando os padrões de tiro do primeiro e segundo jogos, e se não se importa em morrer por falhas técnicas de vez em quando, então sim, R-Type Dimensions III tem seu valor. O visual 3D ficou lindo, a possibilidade de alternar para o 2D clássico é um mimo, e a trilha sonora remasterizada acerta no coração dos véio.
Eu recomendaria esperar uma promoção ou alguns patches de correção antes de comprar. Do jeito que está agora, com os bugs de colisão e a dificuldade mal equilibrada, pagar preço cheio pode deixar um gosto meio amargo — ainda mais num mercado cheio de concorrentes mais polidos como Cotton Reboot ou os próprios R-Type antigos emulados. Mas, quando funciona, R-Type Dimensions III te lembra porque a série sobreviveu por tanto tempo: porque não tem nada mais gratificante do que dominar o caos. Mesmo quando o caos, de vez em quando, trapaceia.
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