Quando a gente pega um visual novel como Amnesia: Memories, a primeira impressão que fica é que você está diante de um jogo bonito, bem produzido, mas que esconde uma densidade narrativa que pega qualquer um desprevinido. Lançado originalmente no Japão e depois traduzido para o Ocidente, o título da Idea Factory e Otomate entrega uma proposta que mistura romance, mistério e aquela sensação constante de que você não tem controle total sobre a própria história — o que, convenhamos, é bem o ponto aqui.
Gráficos e direção de arte
Visualmente, Amnesia: Memories é um prato cheio pra quem gosta de traços limpos e personagens bem marcados. As ilustrações são caprichadas, com uma paleta de cores que varia bastante entre os cenários e as expressões dos personagens. Os fundos são detalhados sem pesar a mão, e os designs dos rapazes são… bem, intencionalmente apelativos. Cada um tem uma silhueta, um estilo de roupa e uma presença de tela que entrega muito sobre a personalidade antes mesmo de abrirem a boca.

Porém, nem tudo são flores. Algumas CGs (imagens de evento) sofrem com pequenas distorções de proporção ou um acabamento que parece corrido — nada que quebre a imersão, mas quem tem olho clínico vai notar. O jogo mostra a idade dele nesses momentos, porque lançou lá por 2011 no Japão e a versão ocidental veio depois. Os sprites dos personagens repetem poses com frequência, mas as variações de roupa (sim, eles trocam de figurino conforme a rota e o contexto) ajudam a disfarçar. O orion, aquele bichinho azul que te acompanha o tempo todo, tem animações simples mas que dão vida às interações. No geral, a direção de arte acerta em cheio no que se propõe: criar uma atmosfera que vai do sonhador ao opressivo dependendo da rota.
Sons e trilha sonora
A parte sonora de Amnesia: Memories é competente, mas não espere algo que vá ficar na cabeça por semanas. A trilha de fundo é discreta, focada em criar clima sem roubar a cena — o que é exatamente o que um visual novel precisa. Os temas românticos têm aquele toque melancólico de shoujo dos anos 2000, enquanto as faixas de suspense usam cordas graves e sintetizadores levemente desconcertantes. Onde o jogo capricha mesmo é na dublagem: os personagens principais têm vozes em japonês (sem opção de dublagem em inglês, fica o aviso) e a atuação é de alto nível. Dá pra sentir o desconforto, a raiva, o carinho ou a obsessão de cada cara só pelo tom de voz. O protagonista, por sua vez, é mudo na maior parte do tempo, o que pode incomodar alguns, mas é proposital pra facilitar a imersão.
Os efeitos sonoros são básicos — portas abrindo, passos, aquele barulho de “plim” quando você toma uma decisão importante — e cumprem sua função sem estardalhaço. O problema maior é que a mixagem às vezes enterra a música quando os diálogos começam, e você percebe um leve desequilíbrio de volume entre as falas e o ambiente. Nada crítico, mas perceptível depois de algumas horas de jogo.
Jogabilidade: escolhas, parâmetros e o tal do “confiança”
Agora vamos ao que interessa pra quem quer saber se Amnesia: Memories é divertido de jogar e não só de ler. O sistema central é baseado em escolhas que afetam dois medidores: um de afeto (óbvio) e outro de… confiança? Na verdade, o jogo chama de “confiança” mas na prática mede o quanto você está alinhado com as expectativas do interesse amoroso. Cada rota tem um desses, e se você deixar o medidor muito baixo ou muito alto dependendo do contexto, pode acabar num final ruim — e olha, alguns finais ruins aqui são surpreendentemente sombrios.

A grande sacada é que o protagonista perdeu a memória, e as escolhas refletem isso: você decide respostas mais cautelosas, curiosas ou que tentam fingir normalidade. Não existe um mapa de rotas explícito, então boa parte da experiência é tentativa e erro — ou uso de guias, porque convenhamos, alguns requisitos são bem obscuros. A orion, o espírito que te guia, solta dicas sutis mas nunca diz claramente “escolha isso ou você morre”. Aliás, o jogo tem um sistema de “mundo paralelo” onde cada rota é uma realidade alternativa, e o que você faz numa não interfere na outra. Isso tira a pressão de um “primeiro playthrough perfeito” e permite explorar sem medo.
A progressão é linear por capítulos, com momentos de “pensamento” onde você acessa fragmentos de memória que vão montando o que aconteceu antes do apagão. É um incentivo narrativo eficaz. O maior pecado da jogabilidade é a falta de um botão de “pulo rápido para próxima escolha” bem implementado — quando você repete uma rota pra pegar finais alternativos, precisa segurar o botão de avanço por um bom tempo. Isso envelheceu mal.
História: amnésia, romance e bandeiras vermelhas
Ah, a história. Amnesia: Memories começa com uma premissa forte: você acorda sem nenhuma lembrança, acompanhada apenas pelo orion, e descobre que vive em um mundo onde seu relacionamento com um dos cinco rapazes (Shin, Ikki, Kent, Toma ou Ukyo) é o centro da sua vida. Cada rota explora uma versão diferente desse relacionamento, e aqui mora tanto a força quanto um certo desgaste do jogo.
A rota do Shin, por exemplo, tem um tom mais investigativo: ele suspeita de um crime, e você precisa decidir se confia nele ou não. É uma das tramas mais coerentes. Já a rota do Ikki é conhecida por ser… problemática. O cara tem um poder sobrenatural de fazer qualquer mulher se apaixonar por ele, e a tiração disso rende cenas que vão do ridículo ao desconfortável. O Kent é o alívio lógico: um matemático sem noção social que aprende a demonstrar afeto. O Toma… bem, quem jogou sabe do que estou falando. Há uma razão pela qual muitos fãs recomendam pular ou ter estômago forte antes de encarar a rota dele. Sem dar spoilers, mas o jogo vai pra um lugar de suspense psicológico e dependência emocional que beira o horror doméstico. E a explicação no final da rota? Fraca. Muito fraca. Deixa a sensaçao de que os escritores tentaram justificar o injustificável.
A rota verdadeira (Ukyo) amarra tudo com uma camada extra de tragédia e revelações sobre o apagão de memória. É facilmente a melhor escrita do jogo, com um drama genuinamente bem construído. O problema é que, para chegar até ela, você precisa ter paciência de passar por todas as outras — incluindo as que têm furos de roteiro ou personagens agindo de forma ilógica só para gerar conflito. O texto localizado em português (ou mesmo em inglês) tem um tom meio novelesco às vezes, com repetições de frases feitas, mas mantém a essência original.
A grande sacada é que o jogo não tem um “romance padrão”. Cada rota subverte expectativas de um jeito que pode encantar ou frustrar. Eu, particularmente, acho que a falta de consistência no tom tira um pouco o brilho — uma hora você tá num slice of life fofo, na outra tá lidando com trancamento compulsório. Mas isso também é o que faz Amnesia: Memories ser discutido até hoje.

Conclusão: vale a pena ou não?
Vou direto ao ponto: sim, eu recomendo Amnesia: Memories, mas com ressalvas. É um jogo que envelheceu em alguns aspectos técnicos (sistema de avanço de texto, falta de um guia in-game, CGs inconsistentes) e tem roteiros que vão testar sua paciência e seus limites éticos com certos comportamentos romantizados. Por outro lado, a liberdade de explorar realidades paralelas, o mistério bem dosado em várias rotas e a qualidade da dublagem japonesa elevam a experiência.
Se você gosta de visual novels com foco em romance e não se importa em usar um walkthrough para evitar finais frustrantes, vai encontrar horas de entretenimento. Se você procura algo leve e sem gatilhos, pule a rota do Toma e do Ikki e foque no Shin, Kent e Ukyo. O jogo entrega um valor de replay alto justamente porque cada rota é uma história nova, e os extras desbloqueáveis depois de zerar tudo compensam o esforço.
Pontos negativos finais: o ritmo cai em algumas rotas (especialmente no começo de cada uma, onde você fica perdida sem saber nem o próprio nome), e a falta de uma opção de pular diálogos já vistos de forma mais inteligente é um pecado em 2025. Mesmo assim, Amnesia: Memories se mantém como um titulo importante no gênero — bonito, dramático e cheio de momentos que vão desde “awwn que fofo” até “o que eu acabei de ler?”. E no fim das contas, não é exatamente essa montanha-russa emocional que a gente procura num bom visual novel?
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