InícioIndiesReview: Monster Crown: Sin Eater – Fusão, Frustração e Talento

Review: Monster Crown: Sin Eater – Fusão, Frustração e Talento

Pega um café e senta aí, porque vamos falar de um jogo que, confesso, me pegou de surpresa. Monster Crown: Sin Eater chega na mesa como aquele prato que você já provou antes, mas com um tempero totalmente novo. Quem jogou o primeiro Monster Crown sabe o caldo: ideias geniais, execução meio truncada, bugs que apareciam do nada. Agora, com essa versão/expansão/refinamento (chame como preferir), a coisa mudou de figura. É quase como se o primeiro jogo fosse o rascunho rabiscado num guardanapo, e Sin Eater fosse a tela finalizada a óleo. Quase.

Vamos por partes, porque o bicho é complexo e promete comer boas horas da sua vida sem dó.

GRÁFICOS: PERSONALIDADE QUE DIVIDE

Visualmente, Monster Crown: Sin Eater tem uma identidade que ou você abraça na hora, ou estranha até o fim. O mundo aberto é um show à parte: os cenários têm uma pegada retro mas com camadas de detalhe que lembram os clássicos de Game Boy Color levados ao extremo. Cores vivas, contrastes fortes, clima meio sombrio em certas áreas – isso casa bem com a proposta “monstros com atitude”, longe do fofo e inocente de outras franquias.

Agora, e aqui vai uma reclamação sincera (e que vários jogadores já apontaram), os sprites em batalha são um pouco estranhos. Parece que nem todos os bichos foram feitos pela mesma mão. Tem monstro muito bem desenhado, com animação caprichada, mas ao lado dele surge uma criatura cuja proporção parece desalinhada ou com traço mais simples. Essa inconsistência de qualidade tira um pouco do brilho técnico. Na exploração, tudo flui bonito; na batalha, um ou outro sprite te faz coçar a cabeça. Fora isso, a direção de arte é ousada e isso merece crédito – pelo menos não é mais um clone genérico.

SONS: O MELHOR QUE VOCÊ NÃO ESPERAVA

Vamos ser diretos: a trilha sonora de Monster Crown: Sin Eater é, disparado, um dos pontos altos do pacote. Não é exagero. As músicas conseguem transitar entre momentos épicos, tensão e aquela melancolia de vilarejo esquecido no mapa. Tem faixa que você vai sair assobiando sem perceber. O compositor entendeu que um bom monster tamer não vive só de batalha – vive de atmosfera. E aqui, a atmosfera canta.

Os efeitos sonoros são funcionais, sem grandes invenções. Golpes têm peso mediano, gritos de monstros são caricatos na medida certa. Não chega a ser um show de Foley, mas também não atrapalha. O grande destaque mesmo fica por conta dos temas de batalha contra chefes e das áreas mais isoladas. Se você joga de fone, prepara o volume.

JOGABILIDADE: O LABIRINTO DA FUSÃO E O PROBLEMA DA CURVA

Aqui é onde Monster Crown: Sin Eater brilha e tropeça, às vezes no mesmo passo. O sistema de fusão/breeding é, sem medo de errar, um dos mais profundos e criativos do gênero. Você consegue passar horas no “laboratório” cruzando linhagens, testando combinações, tentando criar aquele time visualmente monstruoso e estatisticamente apelativo. A liberdade é tamanha que dois jogadores podem zerar com times completamente diferentes, e isso é raro hoje em dia. Se você curte SMT ou Infinite Fusion (mas com os bugs resolvidos), vai se sentir em casa.

O problema mora na dificuldade. E não é pouco não. O mundo aberto, apesar de convidativo, bagunça completamente a curva de progressão. Você pode, sem querer, trombar com uma área de nível alto logo no começo e tomar um pau sem explicação. Ou, no lado oposto, farmar uns cruzamentos meia-boca e varre o jogo inteiro no automático – mesmo no tal do “hard”. A falta de um balancing mais rigoroso tira a necessidade de explorar todo aquele sistema genial de fusão. Por que vou gastar 2 horas montando um time tático se três golpes básicos resolvem 90% das lutas? Esse descompasso é uma faca de dois gumes. Quem gosta de desafio constante pode se frustrar. Quem só quer colecionar, talvez nem ligue.

O combate em si, vale dizer, ainda é meio “quadrado” – falta variedade de movimentos. Você rapidamente percebe que vários monstros compartilham os mesmos golpes de sempre, o que reduz a graça do estratégia. E a IA adversária, embora não seja burra, também não vai te surpreender com truques geniais.

Pontos positivos que merecem menção: as opções de qualidade de vida são boas. Dá pra acelerar batalhas, pular animações, gerenciar time sem loucura. O jogo não força dificuldade artificial tirando menus úteis – isso é maturidade de design.

HISTÓRIA: EDGY DEMAIS PRO MEU GOSTO, MAS FUNCIONA

Vamos combinar: ninguém joga monster tamer atrás de um Disco Elysium. A história de Monster Crown: Sin Eater tenta ser sombria, com personagens de moral duvidosa, diálogos carregados de um cynismo meio adolescente. E… cansa rápido. Tem hora que o texto força tanto a barra pra ser “dark” que perde a naturalidade. Você começa a pular falas, e quando isso acontece, o engajamento narrativo vai pro saco.

A premissa até é boa: corrupção, pactos, monstros não são só amiguinhos fofos. Mas a execução via diálogos truncados e algumas traduções meio duras (se você jogar legendado) atrapalha. Perde o interesse rápido se você não for fã de tramas edgy com vilão de discurso pseudo-filosófico. Por outro lado, não atrapalha a gameplay – você pode ignorar boa parte e seguir caçando criatura. Então, nota média.

CONCLUSÃO: VALE A PENA? SIM, MAS COM RESSALVAS

Monster Crown: Sin Eater é, sem dúvida, uma evolução brutal em relação ao primeiro jogo. A fusão é viciante, a arte tem personalidade, a música é excelente e a quantidade de conteúdo mantém você preso por dezenas de horas. É um daqueles títulos que vai servir de referência no nicho de monster tamers por um bom tempo – especialmente para quem curte sistemas profundos ao invés de apenas “pegar todos”.

Contudo, os problemas de balanceamento são reais e impactam. A curva de dificuldade inconsistente e a falta de variedade nos golpes seguram o jogo de se tornar um clássico absoluto. O fato de ainda não ter um endgame robusto (até o fechamento dessa review) também pesa para quem gosta de continuar jogando após os créditos.

Portanto, eu recomendo o jogo, mas com um pé atrás. Se você é fã de criação de times, fusão e não se importa em calibrar a própria dificuldade (ignorando certas áreas até a hora certa, ou evitando combinações muito quebradas), vai se amarrar. Agora, se você busca um desafio justo do início ao fim sem precisar se autossegurar, pode sair frustrado.

No fim das contas, Monster Crown: Sin Eater é um prato cheio pra quem curte sujar as mãos no laboratório. Só não espere que o jogo segure na sua mão – nem pra te proteger, nem pra te segurar. E ta tudo bem.

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Apaixonado por games desde sempre, tive o prazer de acompanhar grande parte da evolução dos games. RPG, Ação, Aventura, FPS, etc jogo de tudo.

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