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Review: Necrophosis – Beksinski e Pesadelos em Carne e Osso (+ DLC Subconsciousness)

Necrophosis é um daqueles jogos que você não joga, você experiencia. Desenvolvido pela Dragonis Games, o título se apresenta como um walking simulator de terror cósmico, mergulhando o jogador em um mundo surreal que parece ter saído diretamente das telas de Zdzisław Beksiński e H.R. Giger. A pergunta que fica no ar, porém, é se a experiência visual e filosófica é suficiente para carregar um jogo que, em termos de jogabilidade, é propositalmente minimalista. A resposta, como veremos, é um tanto quanto complexa.

Gráficos e Direção de Arte

Se existe um ponto em que Necrophosis é impecável, é na sua direção de arte. O jogo é, antes de tudo, uma galeria de horrores belíssimos. Cada cenário foi meticulosamente construído para evocar uma sensação de decadência e grandiosidade, como se o jogador estivesse caminhando por um museu dedicado ao fim dos tempos. A inspiração em Beksiński é mais do que evidente; ela é a própria espinha dorsal do jogo, com suas vastas paisagens desoladas, figuras esqueléticas e uma paleta de cores que transita entre o marrom terroso, o cinza e o vermelho-sangue.

A equipe de desenvolvimento, liderada pelo artista Ares Dragonis, criou um mundo que não é apenas decorativo, mas que parece contar uma história através de sua própria arquitetura. As estruturas não parecem construídas, mas sim crescidas, orgânicas, como se fossem parte de um corpo gigantesco e em decomposição. A quantidade de detalhes é estupenda. É comum o jogador parar por minutos a fio apenas para admirar uma montanha que, na verdade, é o rosto congelado de um titã, ou uma parede feita de corpos entrelaçados em agonia eterna. O jogo não tem medo de usar o vazio e a escala a seu favor, fazendo o jogador se sentir um grão de areia em um universo de sofrimento e mistério. A ambientação é, sem sombra de dúvidas, a maior e mais bem-sucedida “personagem” do jogo, e a inclusão de um modo foto robusto só reforça o carinho dos desenvolvedores com este aspecto.

“Necrophosis é um jogo que vive ou morre pela sua estética. É uma obra de arte interativa.”

Trilha Sonora e Design de Som

O design de som de Necrophosis segue a mesma linha de sua direção de arte: é soturno, opressivo e extremamente eficaz em criar uma atmosfera de desconforto. A trilha sonora, no entanto, é um ponto que divide opiniões. Em certos momentos, ela se mostra magistral, com notas graves e arrastadas que parecem ecoar a tristeza do mundo. Porém, em outros, ela se torna quase imperceptível, um ruído de fundo que, embora não atrapalhe, deixa de contribuir para a imersão total.

É no design de som ambiental, contudo, que o jogo brilha. Os gemidos e sussurros das criaturas, o vento uivando entre as ruínas de carne e os sons baixos e guturais que parecem vir das próprias montanhas criam uma tapeçaria sonora perturbadora. Alguns jogadores relatam que a dublagem dos personagens, embora bem interpretada, tende a ser um tanto lenta e arrastada, o que pode quebrar um pouco o ritmo da exploração para quem prefere uma narrativa mais dinâmica. Em suma, o áudio é competente e reforça a estética do jogo, mas não chega a ser inovador ou memorável como os visuais.

Jogabilidade e Interação

Aqui reside o ponto mais controverso de Necrophosis. Tratando-se de um walking simulator puro, a jogabilidade é extremamente focada na exploração e na resolução de puzzles. O jogador não encontrará combates, sistemas de evolução ou qualquer mecânica que exija reflexos rápidos. A proposta é andar, observar, interagir com objetos e personagens, e resolver quebra-cabeças que, na maioria das vezes, envolvem encontrar um item específico e usá-lo em um local correto, indicado por uma “poeira dourada” flutuante.

Os puzzles, em sua maioria, são simples e lineares. O desafio maior não está na lógica em si, mas em descobrir o que fazer em meio a um ambiente tão caótico e visualmente poluído. Essa simplicidade é uma faca de dois gumes. Por um lado, torna o jogo acessível e permite que o jogador foque em apreciar a paisagem sem se frustrar. Por outro, a mecânica de “procurar e encaixar” pode se tornar repetitiva e monótona ao longo das ~3 horas de duração da campanha. Existem momentos de interação mais inspirados, como controlar uma criatura gigante para mover seus pés ou se transformar em uma aranha para escalar uma parede de carne, mas são exceções em uma rotina de gameplay que, por vezes, beira o entediante. Apesar de alguns bugs de soft-lock no lançamento, a mecânica é sólida, ainda que rasa.

História e Narrativa

A trama de Necrophosis é propositalmente enigmática. O jogador acorda em um mundo destruído, bilhões de anos após o fim do universo, e precisa entender seu propósito e o que o cerca. A narrativa é contada de forma fragmentada, através de poemas, diálogos com criaturas condenadas e, principalmente, pela própria ambientação. Essa abordagem, que lembra o estilo de Scorn, visa criar uma sensação de estranhamento e questionamento existencial.

E, para muitos, isso funciona. A história aborda temas como a finitude, o sofrimento e a natureza do ciclo da vida e da morte, levantando questões filosóficas interessantes. A conclusão, inclusive, é apontada por alguns como um dos pontos altos do jogo, por conseguir amarrar as pontas soltas de forma satisfatória. No entanto, o estilo extremamente abstrato e metafórico da narrativa pode afastar quem busca uma história mais direta e compreensível. Os diálogos, que frequentemente se estendem em monólogos poéticos, podem soar pretensiosos para alguns, enquanto para outros, são a cereja do bolo de uma experiência artística profunda.

Conclusão

Necrophosis é um jogo que vive ou morre pela sua estética. É uma obra de arte interativa, um pesadelo belo e meticulosamente construído que homenageia mestres do horror surreal. A direção de arte é, sem dúvida, seu maior trunfo, e a proposta de um walking simulator focado na imersão é executada com competência, ainda que com uma jogabilidade que pode ser considerada limitada.

Porém, o preço cheio e a curta duração são fatores que pesam contra, especialmente para quem busca um jogo com mais profundidade mecânica. A experiência é comparável a uma visita a um museu de arte macabra: é fascinante, mas você não necessariamente quer passar horas lá. Considerando os pontos fortes e fracos, a recomendação fica para fãs do gênero e apreciadores da arte de Beksiński e Giger. Se você está em busca de uma experiência visual única e não se importa com uma jogabilidade simples e uma narrativa abstrata, Necrophosis é uma jornada que vale a pena.


Mini Review: DLC Subconsciousness

A DLC Subconsciousness funciona como um complemento direto à experiência principal, aprofundando-se nos aspectos mais abstratos e oníricos do jogo. É uma expansão pequena, com cerca de 30 a 40 minutos de duração, que segue a mesma fórmula do jogo base, porém com uma camada ainda maior de obscuridade.

Visualmente, ela mantém o padrão de qualidade, apresentando novas áreas igualmente perturbadoras e belas. Contudo, o grande diferencial está nos diálogos. Enquanto no jogo base a narrativa poética podia soar confusa, aqui ela se torna mais direta, oferecendo um fio condutor mais claro para quem teve dificuldade em compreender a trama principal. Essa mudança no tom narrativo é um acerto, pois permite que o jogador se conecte melhor com o universo.

No entanto, os puzzles, que já não eram o ponto forte do jogo original, se tornam ainda mais confusos e pouco intuitivos. A lógica por trás das interações parece, por vezes, inexistente, tornando a experiência mais um teste de tentativa e erro do que de raciocínio. A DLC é um deleite para quem quiser mais do mundo de Necrophosis, mas peca pela brevidade extrema e por uma jogabilidade que beira o incompreensível. Sua aquisição é recomendada apenas para os fãs mais dedicados que desejam extrair cada gota de conteúdo do jogo.

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Apaixonado por games desde sempre, tive o prazer de acompanhar grande parte da evolução dos games. RPG, Ação, Aventura, FPS, etc jogo de tudo.

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