Quando se fala em jogos que tentam resgatar a estética dos desenhos animados dos anos 30, o primeiro nome que vem à mente é Cuphead. Porém, e se alguém pegar aquela mesma animação em preto e branco, cheia de membros elásticos e caras exageradas, e misturar com tiroteios frenéticos no estilo Doom? O resultado é MOUSE: P.I. For Hire, um título independente que chega prometendo ser mais do que um exercício de nostalgia. Ele quer ser, acima de tudo, um FPS que se sustenta pelas proprias pernas — ou melhor, pelas proprias patas.
Gráficos e Direção de Arte
Vamos começar pelo obvio: visualmente, MOUSE: P.I. For Hire é um espetáculo. O jogo adota o estilo rubber hose (mangueira de borracha) com uma fidelidade quase acadêmica. Os personagens tem braços que ondulam como espaguete, luvas brancas desproporcionais e expressões faciais que variam do exagero cômico ao terror expressionista em questao de segundos. Tudo é renderizado em uma paleta preto e branca com alguns toques de cinza e amarelo desbotado, imitando a qualidade granulada dos filmes da época.

Os cenários são labirinticos no melhor estilo boomer shooter, mas cada corredor, cada beco e cada telhado parece ter saido direto de um curta da Fleischer Studios. Há uma atenção aos detalhes que impressiona: cartazes de “Procurado” com desenhos rabiscados, letreiros de neon piscando de forma irregular, e sombras que se alongam de maneira caricata. A cidade não é apenas um palco para tiroteios, é um personagem por si só. Em certos momentos, confesso que parei só para ficar olhando a animação de um ventilador de teto ou o jeito que um barril de petróleo se deforma ao ser chutado.
Um pequeno deslize, contudo, aparece na legibilidade durante combates mais intensos. Como os sprites dos inimigos são totalmente 2D e viram sempre para o jogador (billboarding), em certos ângulos fica dificil distinguir a hitbox real. Você mira na cabeça do rato, mas o sprite inclina e o tiro passa raspando. É algo que acostuma, mas nas primeiras horas deu uma certa raiva.
Sons e Trilha Sonora
A parte auditiva é dividida em duas camadas bem distintas. De um lado, temos a dublagem. Troy Baker — sim, o próprio — dá voz ao protagonista Jack Pepper, e ele claramente está se divertindo. O detetive murino solta trocadilhos dignos de tio do pavê entre um tiro e outro, com aquela entonação de detetive durão dos filmes noir. As falas são tão exageradas quanto as animações, e isso funciona perfeitamente. Os inimigos também tem grunhidos e falas curtas que beiram o pastelão, como o clássico “You’ll never take me alive!” antes de explodir em uma nuvem de fumaça.
Do outro lado, a trilha sonora assinada por Patryk Scelina é um caso a parte. O jazz dos anos 30 domina a maior parte do jogo, com saxofones preguiçosos e pianos stride que criam um clima de mistério e safadeza. Até que, em uma missão especifica dentro de um estúdio de cinema, o jogo do nada começa a tocar Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach, seguida pela Quinta Sinfonia de Beethoven. É um contraste tão inesperado quanto bem vindo. A música eletro-swing da Caravan Palace, que toca em momentos de ação mais frenética, também merece destaque — e sim, isso é um certo orgulho nacional para os franceses.
O problema é que, em tiroteios com mais de dez inimigos na tela, os sons de armas e explosões acabam soterrando a trilha. O jogo não tem um bom sistema de mixagem dinâmica, então você perde boa parte da imersão musical nesses momentos. Nada que quebre a experiência, mas é notável.

Jogabilidade
Aqui é onde MOUSE: P.I. For Hire precisa ser analisado com carinho. O jogo pega emprestado quase tudo do manual do Doom: movimentação rápida, strafing, arsenal variado e a necessidade de gerenciar munição enquanto esquiva de projéteis. O diferencial é o dash e o pulo duplo que são desbloqueados ao longo da campanha, algo que deixa os combates bem mais verticais do que o esperado.
O arsenal é generoso: revólver, escopeta (que empurra inimigos para trás com um squash and stretch digno de desenho), metralhadora de munição limitada, um lança-chamas que derrete ratos de forma grotescamente cartunesca, e até uma arma de pregos que prende inimigos nas paredes. Cada arma tem personalidade, e a troca entre elas é fluida. O feedback de impacto é bom, especialmente na escopeta, que transforma inimigos em nuvens de fumaça preta com olhos de xis.
Um ponto polêmico é o sistema de headshot. Quando você acerta a cabeça de um inimigo, há uma animação especifica onde ele segura o próprio crânio antes de cair. Só que o dano não é tão maior assim. Na prática, as vezes é mais eficiente dar dois tiros no peito do que mirar cuidadosamente na cabeça, o que desincentiva a precisão. Já vi jogadores reclamarem disso em forums, e concordo: pra um jogo que se vende como “detetive atirador”, a falta de recompensa clara por mira cirúrgica é uma pequena contradição.
Também vale mencionar os mini games. O jogo tem um sistema de lockpick que envolve controlar a cauda do rato em um labirinto de angulos, o que é simples mas funcional. Há também um minigame de cartas inspirado no beisebol chamado “Whiffle”, cuja lógica lembra uma partida de botão ou battle — não espere entender as regras na primeira tentativa.
A ausência de um seletor de fases é o maior pecado do jogo. Você não pode voltar para pegar colecionaveis perdidos sem começar uma nova campanha do zero. Isso é frustrante, especialmente para quem gosta de explorar cada canto. Os cenários são cheios de segredos interessantes (armas escondidas, cartas, posters), e ter que rejogar tudo desde o início para pegar o que faltou é cansativo. O salvamento manual ajuda, mas não resolve. Tomara que os devs adicionem isso depois.
História
Não espere um romance noir profundo. A trama é propositalmente simples e serve como desculpa para atirar em centenas de roedores. Você controla Jack Pepper, um detetive particular que investiga o assassinato de um parceiro (surpresa, né?). Logo descobre que há algo chamado “Queijo-Gate” envolvendo máfias, cientistas loucos e ratos ciborgues. As missões secundárias são completamente dubladas, o que impressiona pelo esforço, e os diálogos tem tantos trocadilhos de queijo que vai fazer você revirar os olhos pelo menos umas dez vezes.
Os colecionaveis espalhados pelos níveis contam histórias paralelas sobre a cidade e seus habitantes, e eu sou alguém que normalmente odeia ler documentos em jogos. Aqui, pelo tamanho reduzido e pelo tom bem humorado, acabei lendo todos. Não é uma história memorável, mas é uma história que não atrapalha o que interessa: atirar.

Conclusão
MOUSE: P.I. For Hire é um jogo que acerta mais do que erra. A direção de arte é impecável, o tiroteio é viciante depois que você se acostuma com as peculiaridades dos sprites 2D, e a trilha sonora tem momentos de brilhantismo. Os problemas estão na falta de um level selector, no sistema de headshot pouco recompensador e na mixagem de som que some na ação. Nada disso é dealbreaker, mas são arestas que precisam ser lixadas.
Eu recomendo o jogo? Sim, especialmente para fãs de boomer shooters que estão cansados da estética ouro e sangue. Também recomendo para quem curtiu Cuphead mas sempre quis atirar ao invés de desviar de balas. Jogue na dificuldade mais alta desde o começo — a experiência fica mais tensa e os inimigos suicidas (eles correm pra cima de você sem medo) criam situações imprevistas hilárias. Só não vá esperando um jogo de detetive. É um FPS com skin de detetive, e tá tudo bem.
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