Quando você ouve falar de um jogo que mistura combate no estilo Batman Arkham com a pegada rítmica de Hi-Fi Rush, é fácil achar que é mais uma daquelas promessas que nunca saem do papel. Porém, Dead as Disco já está aí, em Early Access, e me surpreendeu. Não vou mentir: o bixo ainda tem muito o que crescer, mas o que já dá pra jogar é de uma qualidade que faz até os problemas passarem meio despercebidos. Vamos por partes, porque tem coisa boa e coisa nem tão boa assim.
Gráficos e direção de arte
Visualmente, Dead as Disco é um tapa na cara. Não no sentido de ser ultra-realista, mas sim no de ter personalidade. Os cenários dos quatro níveis da campanha são caprichados — cada um com sua paleta de cores e clima que combinam perfeitamente com a trilha e o contexto. O nível da Aurora, por exemplo… bom, ali eu tive a oportunidade de agradecer os pais do Miyazaki pela consultoria, porque as trocas de fase e os cenários são de cair o queixo. As animações dos golpes são fluidas, os efeitos de luz e partículas estouram na tela e os designs dos chefes (os ex-companheiros de banda) são criativos e cheios de atitude.

O porém fica por conta da rigidez facial durante as lutas. Os chefes têm expressões congeladas, mesmo nos momentos mais intensos. Isso quebra um pouco a imersão emocional, ainda mais quando a proposta é te fazer sentir a raiva e a tristeza do protagonista Charlie. No hub, o Encore, os personagens também ficam paradões como manequins, e as conversas usam artes estáticas. Dá pra sentir que a parte visual da narrativa ainda tá engatinhando.
Sonoros e trilha
Aqui não tem erro: Dead as Disco acerta em cheio. As músicas são absurdamente boas, e o jogo permite que você coloque sua própria playlist — recurso raríssimo e que já ganhou meu respeito eterno. O sync das animações com a batida é algo que claramente exigiu um trabalho absurdo dos desenvolvedores, e isso merece palmas. Os efeitos sonoros são crocantes, cada hit, cada esquiva, cada parry tem um retorno auditivo que conversa com o ritmo. Quem curte jogos de ação e música vai se sentir em casa. A única crítica é que, por enquanto, a quantidade de faixas originais é limitada pelos quatro níveis da história. Mas se os caras continuarem nesse nível de qualidade, tamo bem.
Jogabilidade e combate
Vamos ser diretos: a gameplay de Dead as Disco é simples, mas eficiente. O sistema lembra Batman Arkham nos contra-ataques e na sensação de controle, mas com a adição de golpes no ritmo da música, igualzinho Hi-Fi Rush. Você tem esquiva, parry, ataques leves e pesados, além de uma árvore de habilidades que vai destravando mais opções conforme você avança. Os desenvolvedores já melhoraram bastante desde o demo, adicionando mais moves e deixando o combate mais expressivo. É genuinamente divertido de aprender e dominar.

O problema maior não é a luta em si, mas a estrutura ao redor dela. Cada missão é basicamente uma arena que se transforma em estágios conforme você avança. Não há níveis propriamente ditos — você seleciona o chefe num menu, cai numa arena, luta, a fase troca visual, mais luta, e acabou. Faltam aqueles corredores, inimigos comuns, exploração e construção de clima que jogos como Sifu fazem tão bem. Fica a sensação de que você está jogando só a boss fight, e olhe lá.
Outro ponto que merece atenção é o sistema de pontuação. Pra tirar 5 estrelas num nível, você precisa atingir uma nota que parece calculada na régua do máximo possível. Não é que seja injusto — é difícil e pronto. Mas seria muito bem-vindo um aviso no final mostrando quantos pontos são necessários pra cada estrela. Assim o jogador sabe o que mirar sem ter que chutar. Tomara que adicionem isso num próximo patch.
História (ou o que dela tem até agora)
A premissa é legal: Charlie é morto na noite de abertura da sua banda e faz um pacto para voltar por uma última noite e descobrir quem o matou. Os chefes são seus ex-companheiros de banda — uma punk roqueira rebelde, uma IA popstar com síndrome de deus, um roqueiro que jurou não se encher de implantes e se encheu mesmo, e um rapper de rua que virou executivo de gravadora. Até aí, ok. O problema é que cada um deles tem exatamente o mesmo arco: “tinha valores, Charlie morreu, precisei seguir carreira e vendi pra gravadora maligna”. Não há camadas, não há memórias específicas ou momentos que mostrem a amizade com Charlie. Fica tudo muito raso.
No Straight Roads fez algo parecido muito melhor, dando a cada chefe personalidade e contexto. Aqui, falta alma nos diálogos. O hub, o Encore, poderia ser o lugar perfeito pra desenvolver esses personagens depois de derrotados, mas as conversas são mecânicas, sem graça. Você clica em caixas de diálogo e pronto. Nem o bartender, que seria amigo de Charlie, tem qualquer história que te faça ligar pra ele. E pra começar uma luta, você literalmente anda até uma porta que te leva a uma tela de seleção de chefes. O potencial de imersão tá ali, mas ainda não foi aproveitado.

Conclusão: recomendo?
Aqui vai a real: Dead as Disco é uma joia bruta. Tudo o que tá no jogo — combate, música, estilo visual — é de altíssima qualidade. Mas é pouco. Muito pouco. Com apenas quatro níveis e uma estrutura que mais parece um demo estendido, você termina tudo em poucas horas e fica com a sensação de que viu só 20% do que os devs estão prometendo. O potencial é ENORME, e o fato de já estar divertido mesmo cru é um ótimo sinal. Os desenvolvedores claramente sabem o que estão fazendo e já mostraram evolução do demo pra cá.
Então, sim, eu recomendo Dead as Disco, mas com ressalvas: compre sabendo que é um produto em acesso antecipado, com conteúdo limitado e várias arestas a serem aparadas. Se você curte ação rítmica, não se importa em repetir fases pra melhorar pontuação e quer apoiar um projeto com muito potencial, vai fundo. Se você prefere experiências completas e redondinhas, espere mais uns meses. Por mim, já valeu o investimento — e olha que nem sou tão fã de ritmo assim. Mas aquele abraço pros devs: capricha no próximo patch, bota as pontuações no fim do nível e dá vida pra esse hub, que o resto a gente espera.
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