Existe um certo charme em jogos que se propõem a ser mais do que entretenimento — que querem ser experiências, quase como folhear um livro ilustrado enquanto se ouve uma melodia ao fundo. The Liar Princess and the Blind Prince é exatamente essa proposta. Desenvolvido pela Nippon Ichi Software, conhecida por títulos como Disgaea, o jogo chega como uma espécie de anomalia no catálogo da empresa: um conto de fadas interativo que aposta todas as suas fichas na narrativa e na direção de arte, deixando a parte “game” em segundo plano. E é justamente aí que mora o conflito central dessa análise.
Uma Obra-Prima Ilustrada
Vamos começar pelo ponto que, sem dúvida alguma, sustenta o título de pé. Visualmente, The Liar Princess and the Blind Prince é um deleite para os olhos. A estética de livro ilustrado é executada com uma competência absurda. Cada cenário parece ter sido pintado à mão com aquarelas, com uma paleta de cores que transita entre os tons quentes e aconchegantes da floresta durante o dia e os azuis profundos e melancólicos da noite. Há uma suavidade nas linhas e nos traços que confere ao mundo uma sensação de sonho.

Mas o que realmente impressiona não é só o cenário, mas a linguagem corporal dos personagens. A Princesa Loba, em sua forma monstruosa, tem animações que beiram o cômico e o adorável. O jeito desengonçado que ela anda, a forma como ela “abana o rabo” (metaforicamente) ao interagir com o Príncipe, e principalmente a animação de queda — que é propositalmente exagerada — quebram a seriedade do momento e trazem uma leveza que só um bom conto de fadas consegue ter. O Príncipe, por sua vez, tem suas próprias nuances: o sorriso bobo que ele dá ao segurar a mão da princesa é um detalhe minúsculo, mas que carrega um peso emocional gigantesco.
A trilha sonora acompanha esse visual com maestria. São composições que evitam o épico e preferem o intimista. Músicas calmas, muitas vezes com piano e cordas suaves, que servem como um colchão para a narrativa. O trabalho de narração, presente durante toda a jornada, tem um tom de contador de histórias, quase como se fosse um adulto lendo uma fábula para uma criança antes de dormir. É uma imersão sensorial que funciona perfeitamente.
A Mecânica do Afeto
Se a parte artística é um deleite, a jogabilidade é onde o caldo entorna. The Liar Princess and the Blind Prince é um plataforma 2D com elementos de puzzle, e aqui residem os maiores defeitos do título. A premissa é interessante: você controla a Princesa Loba, que possui força para destruir obstáculos e visão noturna, e precisa guiar o Príncipe Cego, que só consegue se mover segurando sua mão ou seguindo o som da sua voz.
Na teoria, isso cria uma dinâmica de proteção e confiança. Na prática, vira uma aula de paciência. O “jogo da mão” é o maior vilão da experiência. Para manter o Príncipe por perto, é necessário segurar um botão para manter o contato. Se você solta por um instante, ou se a colisão do personagem com o cenário resolve agir de forma misteriosa (o que acontece com frequência), o Príncipe para, e você precisa voltar para buscá-lo.

Os puzzles, por sua vez, são simplórios. A maioria se resume a usar a voz da Princesa Loba para atrair o Príncipe para um local seguro enquanto você resolve um obstáculo, ou usar a força bruta para quebrar gaiolas. A variedade é baixíssima. Os inimigos se repetem em um loop de três tipos, todos com padrões de ataque previsíveis e monótonos. Fica a impressão de que a parte interativa foi quase uma obrigação contratual, um meio para que a história pudesse ser contada, mas sem o cuidado que uma desenvolvedora com o histórico da Nippon Ichi deveria ter.
Uma História que Aquece
A narrativa é o coração do jogo. É uma história sobre sacrifício, mentiras para proteger quem se ama e a aceitação de uma forma imperfeita de felicidade. A princesa, que arranha os próprios olhos em um ato de desespero, e o príncipe, que perde a visão, constroem uma relação baseada em uma mentira (ela se passa por uma princesa humana, escondendo sua forma de loba). É clichê? É. É previsível? Também. Mas há uma honestidade na forma como o conto é conduzido que desarma.
As flores colecionáveis, que servem como itens de lore, revelam fragmentos do passado da bruxa e dão um contexto que enriquece a trama principal. O final é interessante, diferente e moderno (sem spoiler).
No entanto, é difícil ignorar a questão do custo. The Liar Princess and the Blind Prince é um jogo que se completa em cerca de 3 a 4 horas. O preço cobrado (PC Steam – R$ 59,99), é desproporcional ao conteúdo oferecido, considerando os problemas técnicos e a curtíssima duração. É um típico caso de “preço de lançamento” para um jogo que, na prática, se comporta como um título indie de porte menor. Para quem não tem um apego emocional ou não está disposto a pagar o valor cheio por uma experiência puramente narrativa, a recomendação é aguardar uma promoção agressiva.

Conclusão
The Liar Princess and the Blind Prince é um paradoxo. É um jogo que se sustenta pelo que não é jogável. A direção de arte, a trilha sonora e a narrativa são de altíssimo nível, entregando uma experiência emocional genuína e memorável. A sensação ao terminar o jogo, é de ter lido um livro ilustrado muito especial.
Porém, como game, ele falha em diversos aspectos fundamentais. A jogabilidade é travada, a física é inconsistente, os puzzles são rasos e a repetição de cenários e inimigos cansa. É um daqueles casos onde você sente que o jogo está te atrapalhando de ver o final da história, em vez de te ajudar a vivenciá-la.
Recomendo o jogo? Sim, mas com ressalvas. Se você busca uma experiência interativa para relaxar, se emocionar com uma história doce e aprecia uma direção de arte impecável, provavelmente vai gostar. Mas é necessário ir com a expectativa ajustada: a parte técnica é frágil. Espere uma promoção, ou entre na experiência sabendo que você está pagando por um conto de fadas ilustrado de 4 horas, não por um plataforma polido.
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