Quando se fala em jogos com temática nórdica, é fácil imaginar que o mercado já saturou o assunto. No entanto, NORSE: Oath of Blood chega com uma proposta visual ousada e uma tentativa de resgatar a jogabilidade tática que lembra os velhos tempos dos RPGs de estratégia. Mas será que ele entrega o que promete? Após passar algumas boas horas com o jogo, dá para ter uma visão bem clara do que funciona e do que parece ter sido deixado pela metade.
Gráficos e Ambientação: O Brilho que Encanta e os Bugs que Cegam
Visualmente, o jogo acerta em cheio na proposta. A direção de arte é de longe o seu ponto mais forte. Os cenários conseguem transmitir a frieza e a brutalidade da Era Viking com uma paleta de cores que, na maior parte do tempo, é sombria e sóbria. Os modelos dos personagens, especialmente durante as animações de habilidades especiais e nos momentos de diálogo, mostram um cuidado artístico que impressiona. Dá para ver que houve uma pesquisa nos trajes, nas runas e na arquitetura das aldeias.

O problema, e aqui ele é grave, é que essa beleza está manchada por uma enxurrada de problemas gráficos. Em diversas ocasiões, é possível ver unidades atravessando objetos ou apresentando falhas de animação. Um exemplo clássico é ver um Berserker saltar para uma plataforma elevada, mas sua representação gráfica insiste em ficar no primeiro andar, como se tivesse virado um fantasma. Em outra missão, havia uma localização que era simplesmente inacessível, bloqueando o avanço. São pequenos detalhes que quebram completamente a imersão. As animações de combate, que nos trailers eram vendidas como um grande diferencial, também sofrem com bugs constantes, fazendo com que a “ficha suja” do jogo seja notada desde os primeiros minutos de jogo.
Jogabilidade e Estratégia: Entre o Brilhantismo e o Caos
Aqui é onde NORSE mais gera frustração, pois a base da jogabilidade é sólida e divertida. O sistema de combate tático por turnos tem mecânicas interessantes, como as zonas de controle e as habilidades especiais que realmente mudam o rumo da batalha. Construir seu povoado, gerenciar recursos e equipar seu bando traz aquela sensação gratificante de progresso.
No entanto, a execução é desastrosa em vários pontos. O equilíbrio do jogo parece ter sido definido jogando dados. Em uma das missões iniciais, inimigos comuns com dano base de 2 estavam acertando golpes de 13 e 8 de dano em um único turno, algo que não faz o menor sentido e tira qualquer noção de dificuldade justa. A inteligência artificial, por sua vez, é uma das mais lentas e confusas que já vi. Você pode dizimar metade do time inimigo com seus arqueiros enquanto os oponentes permanecem em modo de defesa, como se estivessem esperando a vez num jogo de chá. Os aliados controlados pelo computador também não ajudam: em vez de lutar, fogem para os cantos do mapa e ativam a defesa, abandonando qualquer estratégia.
Os bugs não param por aí. É comum ver dois inimigos perfeitamente confortáveis na mesma célula do grid, desrespeitando as regras básicas do jogo. Habilidades como “Perturbação” (Atordoamento) simplesmente falham contra certos inimigos como os “Olhos Mágicos”, que mesmo atordoados mantêm sua zona de controle ativa e te atacam. Os arqueiros então, são um capítulo a parte: em 90% das vezes eles aplicam o status “Mutilação” mesmo quando o ataque é defendido ou refletido, o que é um absurdo de desbalanceado.

História e Narrativa: Uma Saga Genérica, Mas Funcional
A história não tenta reinventar a roda. É a clássica trama de vingança que todo mundo espera de um jogo sobre vikings. Você começa com seu clã sendo atacado e precisa buscar vingança, reconstruir suas forças e desbravar novas terras. Os personagens são carismáticos o suficiente para prender a atenção, e o desenvolvimento deles ao longo das cutscenes é bem feito.
O problema reside na execução técnica e na tradução. Em alguns momentos, os diálogos simplesmente pulavam para legendas em inglês, como se o tradutor tivesse saido para beber hidromel e esquecido de voltar. Além disso, descrições de itens e habilidades são vagas ao extremo. Ver frases como “No início do turno, tem 50% de chance de {swift} até o final do turno” não ajuda em nada. O que é {swift}? É preciso adivinhar. O mesmo vale para as construções na vila: dizer que um edifício dá “+1 ação de pescador” é inútil se não explicar se isso resulta em +5 ou +10 de comida.
Sistema de Progressão e Itens: O Farming e a Criação Frustrante
A gestão de equipamentos e a criação de itens poderiam ser um dos pontos altos, mas acabam se tornando um exercício de paciência. O sistema de salvamento é arcaico. Para salvar o jogo, você precisa estar em um local específico do mapa e apertar Enter físico no teclado, pois clicar no botão desenhado na tela simplesmente não funciona. Se você nomear um save com um nome já existente, ele não sobrescreve nem avisa; apenas falha.
O sistema de “craft” é outro que parece ter sido programado por um Dvergr bêbado. Ao criar um item, ele aparece em dobro. Primeiro você recebe um, e pouco tempo depois um segundo igual surge magicamente no inventário. Em uma missão específica para criar a lança de Torsten, o jogo gerou duas Lanças de Torsten únicas, o que tira toda a imersão e senso de relíquia do objeto. Além disso, para piorar, o simples ato de coletar itens no mapa é um pesadelo. O personagem simplesmente se recusa a pegar o caminho certo para o baú, empacando em qualquer obstáculo. Você precisa levar o personagem exatamente para o ângulo certo para que o cursor destaque a “barril” ou o “baú”, senão, nada feito.

Conclusão: Vale a Pena Embarhar Nesse Navio?
Apesar de todos os pesadelos técnicos, e olha que eles são muitos, NORSE: Oath of Blood tem algo que prende. A vontade de ver o que vem na próxima missão, de equipar melhor seu personagem e testar novas táticas de combate existe. O potencial aqui é gigantesco, mas ele está enterrado sob uma montanha de bugs, decisões de design questionáveis e uma sensação constante de que o jogo foi lançado como um Early Access disfarçado de versão completa.
A sensação que fica é a de que a equipe de QA deve ter jogado o game por apenas 15 minutos antes do lançamento, dada a quantidade de falhas que persistem do início ao fim. A campanha é curta e quando você finalmente engrena na progressão dos personagens, o jogo acaba, te deixando querendo mais, mas sem poder continuar.
Recomendo o jogo? Sim, mas com ressalvas. Se você é fã de jogos táticos e tem paciência para lidar com bugs e uma IA questionável, vale a pena conferir o mundo e a arte que foram criados. No entanto, espere uma promoção boa. Pagar o preço cheio por algo que ainda precisa de tanto polimento é um risco que poucos devem correr. O jogo tem futuro, mas o presente é sombrio e cheio de glitches.
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