Quando o pessoal da Aspyr anunciou que iria trazer de volta Soul Reaver 1 e 2 em versão remasterizada, confesso que fiquei satisfeito, mas também com um pé atrás. Afinal, mexa uma casa do castelo e ele desaba, já dizia o velho ditado. Mas quando saiu a noticia de que Legacy of Kain Defiance também ganharia o mesmo tratamento, aí sim a ficha demorou a cair. Não é segredo pra ninguém que esse jogo, lançado lá em 2003 para PS2 e PC, sempre foi um pouco problemático tecnicamente falando. A gameplay era boa, a história era espetacular, mas a camêra… Meu amigo, a câmera era uma verdadeira inimiga. E é exatamente aí que esse remaster acerta em cheio.

Vamos começar pelo obvio: os gráficos. Defiance Remastered recebeu uma repaginada visual que mantém a essência gótica e sombria que consagrou a série. As texturas foram refeitas com um carinho danado, os personagens ganharam novos modelos que, confesso, nem sempre acertam o tom. Em alguns momentos, principalmente nos close-ups, o Kain e o Moebius parecem ter perdido um pouco daquelas expressões marcantes do original. Ficaram meio genéricos, saca? Mas é um detalhe que a gente releva quando começa a explorar os cenários. A iluminação foi completamente refeita e deu uma sobrevida absurda para os ambientes. E o melhor de tudo: se você for um daqueles saudosistas de carteirinha que não suporta mudança, é só apertar um botão. Isso mesmo, em qualquer momento do jogo você pode alternar entre o gráfico novo e a textura original do PS2, com aquela cara de polígono remexido que a gente aprendemu a amar. É um recurso simples, mas que mostra que a produtora entendeu o espirito da coisa.
A cereja do bolo, sem dúvida nenhuma, é o controle de câmera. Finalmente, FINALMENTE, a liberdade de olhar para os lados sem ter que travar uma luta corporal com o analógico. Quem jogou o Defiance original sabe do que eu estou falando. A câmera era teimosa, ficava presa em ângulos ruins e atrapalhava as plataformas. Hoje, com o sistema de terceira pessoa fluido e modernizado, a experiência é outra. Você consegue mirar os inimigos com precisão, planejar os pulos e, de quebra, usar o modo foto para registrar aquela paisagem macabra. Eles também adicionaram uma opção de “pathing”, que ajuda o jogador a não se perder naqueles cenários repetitivos que a série tem. É um alivio para quem não tem mais 15 anos e horas livres para ficar andando em circulos.

No quesito som, a trilha sonora permanece intacta. Ainda bem, né? Aquele clima de tragédia grega com vocais operáticos é a alma da franquia. Os efeitos sonoros também foram preservados, e a dublagem (infelizmente apenas em inglês, com legendas em vários idiomas) continua sendo um dos pontos altos. A interpretação do Simon Templeman como Kain e do Michael Bell como Raziel é simplesmente antológica. É daquelas atuações que te fazem querer ouvir cada dialogo sem pular, mesmo que você já tenha decorado.
Sobre a jogabilidade, pouca coisa mudou. E nem precisava. A alternancia entre os dois personagens é o que da o ritmo da narrativa. Kain é mais pesado, brutamonte, enquanto Raziel é ágil e usa aquelas garras para planar e atravessar abismos. As batalhas continuam com aquele esquema de combos e magias elementais. É um sistema simples, mas funciona. O que me incomodou um pouco, e olha que já percebi isso em outras análises também, é que eventualmente acontece um bug besta durante as execuções. Quando você agarra um inimigo para drenar a alma (com o Raziel) ou o sangue (com o Kain), as vezes o infeliz te acerta mesmo assim, interrompendo a ação. Não chega a te matar nem drena sua vida, mas quebra um pouco o ritmo. Fora isso, a versão atual parece bem estável. Tive um crash logo no primeiro dia, provavelmente por causa de uma atualização em segundo plano, mas depois disso, zerinho.
Agora, um capítulo a parte merece ser dedicado ao conteúdo extra. Os menus foram reformulados e estão abarrotados de informação. Tem uma enciclopédia completa explicando a linha do tempo confusa (pra não dizer maluca) da série, detalhando cada personagem, cada evento dos jogos anteriores. Para um novato, isso é essencial. Para os veteranos, é um prato cheio. Tem mapas, artworks conceituais, um bestiário e, claro, as skins desbloqueáveis. Algumas skins são compráveis, outras você encontra escondidas pelo cenário. É um incentivo legal para explorar tudo de novo. Senti falta de um conteúdo mais robusto no treinamento, mas o que tem ali já quebra um galho.

No final das contas, Legacy of Kain Defiance Remastered é a prova de que a Aspyr aprendeu com os erros e acertos do passado. Se no primeiro remaster eles capricharam, aqui eles foram além. A base do jogo sempre foi boa, uma história de viagem no tempo, traição e redenção que poucos games conseguem contar com tanta competência. O que eles fizeram foi simplesmente remover as amarras técnicas que impediam a obra de voar. A câmera nova, os gráficos opcionais e a enxurrada de material de apoio transformam a experiência. Recomendo sem sombra de dúvidas, seja você um fã de longa data que ainda tem o jogo original guardado na gaveta ou um curioso que sempre ouviu falar bem da série e quer começar por algum lugar. Agora é torcer para que isso abra precedentes e a gente finalmente ganhe um remake digno do Blood Omen 1. Esse sim, é o sonho de consumo de qualquer fã.
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