Dragon Quest VII sempre foi um título divisivo. Lançado originalmente no PlayStation 1, ele era amado pela sua profundidade e escala épica, mas criticado por um ritmo deliberadamente lento, especialmente em sua introdução interminável. Muitos jogadores, inclusive eu, nunca conseguiram passar daquela barreira inicial. A versão para Nintendo 3DS já havia feito um trabalho digno em modernizar a experiência, mas é com o Dragon Quest VII Reimagined que a obra finalmente atinge o seu potencial máximo, entregando não só um polimento visual impressionante, mas uma reformulação estrutural que a torna essencial tanto para fãs antigos quanto para novos aventureiros.

Vamos começar falando dos gráficos, porque é o primeiro impacto e ele é arrasador. O jogo abraça uma estética “HD-2D” que é, simplesmente, deslumbrante. Os cenários parecem dioramas vivos, com uma profundidade e detalhe que dão vontade de explorar cada cantinho. As cidades têm um charme incrível, uma vibe acolhedora e carismática que é marca registrada da série, mas agora com uma camada de polimento moderno. Os modelos dos personagens, dizem que foram criados a partir de bonecos físicos escaneados, têm uma personalidade única e animações cheias de vida. A exploração tornou-se um prazer visual por si só. É um tratamento que realmente honra o espírito original, mas o eleva a um padrão contemporâneo. Só senti falta de um ajuste mais fino no efeito de depth of field, que às vezes causa um pop-in meio estranho em elementos do ambiente, mas é um detalhe menor perto do conjunto.
No capítulo do som, a imersão é total. A trilha sonora clássica de Koichi Sugiyama está aqui, com novos arranjos orquestrais que soam majestosos. Os efeitos de batalha são satisfatórios e as vozes dos personagens dublados em inglês (japonês opcional) são expressivas e cheias de personalidade, adicionando uma camada extra de conexão com o elenco. No entanto, aqui reside a maior falha técnica desta versão: a ausência total de legendas em português brasileiro (PT-BR). Para um jogo tão focado em narrativa e com diálogos abundantes, é um pecado que limita o acesso de muitos jogadores. A dublagem é imersiva, sim, mas a falta de localização do texto é uma barreira considerável.

A jogabilidade é onde o título “Reimagined” se justifica plenamente. O combate por turnos clássico de Dragon Quest está presente, mas com adições que são um divisor de águas. O sistema de “Táticas” permite configurar o comportamento dos aliados com muito mais nuance. A possibilidade de acelerar as batalhas é uma benção, tornando encontros aleatórios muito mais dinâmicos e menos repetitivos. O sistema de profissões (Vocations) foi mantido e expandido, com a adição dos “Vocational Perks” – habilidades especiais que cada personagem desbloqueia ao se empolgar em combate. Isso adiciona uma camada estratégica deliciosa. A sensação é que o jogo foi descompactado: a progressão é mais fluida, a customização da party é profunda e gratificante, e aquele início arrastado foi significativamente aparado, te colocando no centro da aventura muito mais rápido. A exploração também foi modernizada, com um overworld mais conectado e intuitivo. É a prova de que é possível manter a alma de um RPG clássico enquanto se implementa qualidade de vida moderna.
A história de Dragon Quest VII sempre foi seu ponto forte, e aqui ela brilha com ainda mais força. A premissa de viajar para ilhas do passado para restaurar o mundo presente é genial, funcionando como uma série de contos entrelaçados. Cada fragmento visitado é uma pequena narrativa autônoma, com seus próprios personagens, conflitos e reviravoltas. A qualidade da escrita é excepcional, equilibrando tragédia, humor e aventura com maestria. Personagens como o príncipe Kiefer e a espirituosa Maribel ganham ainda mais destaque, e os arcos emocionais, como o de Ballymolloy, permanecem marcantes. A versão Reimagined não altera o cerne da trama, mas a apresentação e o ritmo melhorados permitem que o jogador se conecte mais facilmente com essas histórias, sem a sensação de fadiga que o original podia causar. É uma narrativa sobre perda, esperança e legado que envelheceu extraordinariamente bem.

Em conclusão, o Dragon Quest VII Reimagined é mais do que um simples remake; é a definição final de uma obra clássica. Ele pega um jogo que era considerado inacessível por seu gameplay datado e o transforma em uma experiência contemporânea, envolvente do início ao fim. Os gráficos são lindos, a jogabilidade foi brilhantemente modernizada e a história permanece uma das mais ricas da franquia. A falta de legendas em português é, de fato, uma falha significativa que espero que seja corrigida em atualizações futuras, mas mesmo assim, a qualidade global do pacote é inegável.
Se você, como eu, sempre quis experimentar este capítulo lendário mas foi repelido pelos relatos de sua lentidão, esta é a sua chance perfeita. E se você é um fã que jogou no PS1 ou no 3DS, a experiência renovada justifica plenamente uma nova jornada. Dragon Quest VII Reimagined não é apenas uma recomendação, é um dos melhores RPGs do ano e um exemplo magistral de como reviver um clássico. Uma obra-prima reavivada para uma nova geração.
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