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Review: Dark Quest Remastered – Um dungeon crawler que respeita as origens

Existe um certo tipo de jogador que sente falta da época em que os RPGs eram menos sobre cinematics e mais sobre sobrevivência. Para esse público, Dark Quest surge como uma espécie de cápsula do tempo. Desenvolvido pela Brain Seal, o jogo é uma adaptação direta de um board game homônimo, e isso fica evidente em cada mecânica e na sua proposta visual. A proposta é simples: controlar um grupo de heróis em masmorras infestadas de monstros, em combates por turnos que exigem mais estratégia do que reflexo. Mas será que a simplicidade do conceito se traduz em uma experiência realmente satisfatória? Vamos aos detalhes técnicos.

Gráficos e Interface

Visualmente, Dark Quest aposta em uma identidade que muitos chamariam de “legacy”. O jogo não tenta competir com os gigantes orçamentosos da indústria; pelo contrário, ele abraça uma estética que lembra os antigos livros de fantasia e os tabuleiros pintados à mão. Os cenários são sombrios, com uma iluminação que destaca o clima opressor das dungeons. Os modelos dos personagens e inimigos são simples, mas possuem um charme artesanal que agrada.

Um ponto que chama a atenção é a interface do usuário. Ela é funcional e remete diretamente à experiência de um board game digital, com cartas de habilidade e ícones bem definidos. Para dispositivos móveis, a adaptação é confortável, embora no PC a sensação seja de que estamos jogando algo que foi pensado primeiro para toques na tela, o que não chega a ser um problema grave. A HUD é informativa sem ser poluída, mostrando claramente o estado do grupo, os itens disponíveis e a ordem dos turnos. A paleta de cores, composta por tons mais terrosos e escuros, reforça a proposta de mergulho em uma masmorra perigosa.

Trilha Sonora e Efeitos

A ambientação sonora é um dos pontos fortes de Dark Quest. A trilha é discreta, mas eficiente, composta por temas que evocam tensão e mistério sem se tornarem repetitivos durante as sessões de jogo. Os efeitos sonoros cumprem bem o papel: o tinir das espadas, os feitiços sendo conjurados e os grunhidos dos monstros têm o peso necessário para tornar os combates mais imersivos.

Há um cuidado em manter a coerência sonora com a temática medieval fantástica. Quando um personagem é atingido ou um golpe crítico é acertado, o retorno sonoro é imediato e satisfatório. É um trabalho de áudio que, mesmo sem grandes firulas, sustenta a atmosfera “old school” que o jogo se propõe a entregar. Não há vozes nos diálogos, o que mantém o foco na leitura e na ação, uma escolha acertada para um jogo que prioriza o ritmo do gameplay.

Jogabilidade e Mecânicas

Aqui chegamos ao coração da review. Dark Quest é um dungeon crawler por turnos baseado em grid. O jogador comanda um grupo de heróis que deve explorar salas, abrir baús e, claro, eliminar hordas de criaturas. O sistema de combate é tático: cada personagem possui suas próprias habilidades, e posicionar corretamente o guerreiro, o mago e o arqueiro faz diferença nos confrontos mais apertados.

No entanto, é preciso falar sobre os controles, que são um ponto de atenção. A mecânica de movimentação é um tanto antiquada e pode frustrar jogadores acostumados com títulos mais modernos. O jogo não permite, por exemplo, clicar em um ponto do cenário para traçar a rota do personagem de forma independente das ações. O fluxo é: você seleciona o inimigo ou o objeto, e o personagem se move para interagir. Isso funciona, mas tira parte do controle fino sobre o posicionamento.

Outro aspecto que merece destaque é a ausência de funcionalidades comuns ao gênero. Não é possível utilizar itens após o movimento, o que limita as opções táticas em um turno. Da mesma forma, não há uma mecânica para trocar itens entre os personagens durante a exploração, obrigando o jogador a pensar na distribuição de poções e equipamentos antes de entrar na dungeon. Para alguns, isso pode soar como uma limitação artificial; para outros, é uma escolha de design que força um planejamento mais rigoroso, remetendo às dificuldades dos RPGs de antigamente e dos board games.

Apesar dessas arestas, a jogabilidade se mostra viciante no ciclo de “tentativa e erro”. O jogo é projetado para que o jogador morra. E morra de novo. Com cada tentativa, o ouro acumulado permite comprar melhores equipamentos para a próxima investida. Essa progressão lembra muito os títulos da série Wizardry, onde o “game over” não é um ponto final, mas sim parte do processo de aprendizado. É um loop honesto: você perde, junta recursos, fortalece o grupo e tenta novamente até conseguir avançar.

História e Narrativa

Em termos de narrativa, Dark Quest não busca inovar. A história é um pano de fundo funcional para justificar a exploração das masmorras. O Rei Demônio está ameaçando a terra, e um grupo de heróis deve detê-lo. É uma premissa direta, sem grandes reviravoltas ou diálogos extensos. O foco aqui é a gameplay e a atmosfera, não uma epopeia roteirizada.

Os elementos de história são entregues principalmente através de textos introdutórios e descrições de itens e cenários. Para jogadores que buscam um enredo profundo e personagens complexos, a experiência pode parecer rasa. Contudo, para aqueles que enxergam o jogo como uma simulação digital de uma sessão de board game, a simplicidade narrativa é perfeitamente adequada. O importante é que o contexto visual e sonoro sustenta a fantasia de ser um aventureiro enfrentando o mal em masmorras escuras.

Conclusão

No balanço final, Dark Quest se apresenta como uma proposta honesta e direta ao ponto. É um jogo curto — a campanha inicial pode ser concluída em cerca de quatro horas e meia — mas que oferece um bom custo-benefício para os fãs do gênero. A jogabilidade, embora contenha mecânicas datadas (como a impossibilidade de usar itens pós-movimento e a falta de troca de equipamentos na dungeon), entrega a experiência tática prometida.

A Brain Seal merece crédito por reviver o título e mantê-lo fiel à sua essência de board game. É um jogo que exige paciencia do jogador, especialmente nos primeiros ciclos de derrota, mas que recompensa a persistência. Não espere gráficos de ponta ou uma história memorável; espere, sim, um dungeon crawler competente, com uma atmosfera bem construída e um loop de progressão que prende.

Recomendo Dark Quest para veteranos do RPG que sentem falta de desafios mais pé no chão e para jogadores que buscam algo para desestressar sem compromisso, desde que estejam cientes das limitações técnicas do controle. Para quem gosta da estética “old school” e de jogos que não seguram a mão do jogador, é uma adição válida à biblioteca.

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