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REVIEW: Beneath – Um Mergulho Sombrio e Aterrorizante

Beneath se propõe a levar o jogador a um lugar onde a luz do sol não chega e a sanidade é um recurso tão escasso quanto a munição. Desenvolvido por uma pequena equipa de Portugal, este jogo de survival horror em primeira pessoa mergulha-nos nas profundezas de uma instalação submarina onde algo terrivelmente errado aconteceu. A atmosfera é, desde o primeiro momento, o seu trunfo mais poderoso. A sensação de isolamento e de pressão constante é palpável, criando um cenário perfeito para uma narrativa de horror que bebe profundamente da fonte lovecraftiana, mas sem medo de incorporar rajadas intensas de ação que lembram clássicos como FEAR e Doom 3.

A primeira coisa que salta à vista em Beneath é o seu visual distinto. Não espere os polimentos de um título AAA, mas sim uma identidade visual coerente e eficaz. Os ambientes são escuros, claustrofóbicos e repletos de detalhes que contam uma história por si só. Corredores inundados, laboratórios abandonados com equipamentos a avariar e aquartelamentos que mostram sinais de um conflito violento compõem a paisagem.

A iluminação é um personagem por direito próprio, com os holofotes da sua arma a ser o seu melhor amigo, cortando a escuridão opressora e, por vezes, revelando sombras fugazes que fazem o coração saltar. A engine gráfica, apesar de não ser a mais moderna, é bem aproveitada para criar uma sensação constante de decadência e perigo. No entanto, é justo apontar que alguns elementos do ambiente poderiam ser mais interativos, e há uma certa quantidade de salas que parecem existir apenas para ampliar o espaço, sem oferecer recompensas ou elementos narrativos significativos, o que pode quebrar um pouco o ritmo da exploração.

O design de som é, simplesmente puto, excecional e um pilar fundamental para a imersão. O jogo domina a arte do silêncio, interrompido apenas pelos sons metálicos dos seus próprios passos, pelo gotejar distante de água ou pelos gemidos de metal da estrutura a ceder sob a pressão do oceano. Estes momentos de quietude são tão intensos quanto os de ação total, porque a expectativa de que algo vai saltar de um canto qualquer é constante. Quando o caos efectivamente se instala, a mixagem de sons é brutal – os gritos dos inimigos, os disparos das armas e a música tensa que entra em cena criam uma cacofonia desorientadora que eleva o pânico a níveis saudáveis. É um trabalho de som que não se limita a acompanhar, mas sim a conduzir a experiência de medo.

A jogabilidade em Beneath é um misto interessante de elementos clássicos do survival horror com um combate mais direto e reativo. O jogador assume o controlo de um protagonista que, tal como em Resident Evil ou Silent Hill, tem de gerir recursos escassos. A munição é preciosa, e cada confronto deve ser ponderado. A sensação de vulnerabilidade é real, especialmente nos momentos iniciais. O combate em si é satisfatório, com as armas a ter um feedback pesado e impactante. A inteligência artificial dos inimigos, tanto os soldados humanos quanto as criaturas abissais, é competente, flanqueando e pressionando o jogador de forma agressiva. No entanto, alguns aspetos da jogabilidade podem sentir-se um pouco rígidos. A incapacidade de saltar, por exemplo, é uma limitação que alguns jogadores poderão achar datada e que, por vezes, entra em conflito com a liberdade de exploração que o ambiente parece sugerir.

A história de Beneath é um daqueles pontos que divide opiniões. A premissa é clássica e cativante: uma instalação de pesquisa nas profundezas do oceano perde o contacto após uma experiência ter corrido mal, e cabe a si investigar. A narrativa desenrola-se através de gravações de áudio, documentos espalhados e eventos ambientais, construindo o seu mistério de forma gradual. As inspirações lovecraftianas são evidentes, não só nas criaturas grotescas, mas na própria noção de um horror cósmico e indizível que corrompe tudo à sua volta. O jogo consegue ser mais ação-oriented do que a média dos títulos do género, o que é um refresco, mas sem perder a essência de um survival horror autêntico. Contudo, a trama não está isenta de furos e momentos que fazem o jogador questionar a lógica de certas ações, como a já mencionada incapacidade de um NPC resolver um problema simples por si próprio, criando uma missão artificial para o jogador. São detalhes narrativos que, se polidos, elevariam a experiência.

Um aspeto técnico que merece crítica é o sistema de save. Dependendo da dificuldade, o jogo utiliza um sistema de salvamento automático que, na opinião de muitos, precisa de uma revisão. Pode haver intervalos longos entre um save e outro, o que significa que a morte pode custar uma quantidade significativa de progresso, aumentando a frustração numa experiência já desafiante por natureza. Felizmente, os desenvolvedores mostraram-se atentos à comunidade, lançando correções rápidas para alguns bugs reportados, o que demonstra um compromisso pós-lançamento louvável para uma equipa pequena.

Em conclusão, Beneath não é um jogo perfeito. Ele carrega as marcas do seu desenvolvimento independente, com algumas limitações técnicas e decisões de design questionáveis. A jogabilidade pode ser um pouco rígida nalguns momentos, a história tem os seus altos e baixos e o sistema de salvamento pode ser uma pedra no sapato. No entanto, o que ele consegue fazer, e faz com maestria, é criar uma atmosfera de terror subaquático das mais convincentes dos últimos tempos. A combinação de momentos de silêncio angustiante com explosões de ação caótica, tudo temperado por um design de som de topo e uma identidade visual única, resulta numa experiência memorável. Se você é um fã do género, que anseia por uma aventura que lembra os clássicos do horror dos anos 2000, e está disposto a perdoar algumas arestas por uma imersão profunda e aterrorizante, então Beneath é, sem dúvida, um jogo que merece a sua atenção e o seu tempo. É um mergulho arriscado, mas que, no final, vale cada minuto de tensão. Uma recomendação sólida para os amantes do horror.

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RPS Games
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Apaixonado por games desde sempre, tive o prazer de acompanhar grande parte da evolução dos games. RPG, Ação, Aventura, FPS, etc jogo de tudo.

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