Pega um café, porque vamos falar de Aether & Iron. Esse título indie chegou meio sem alarde, mas já tem gente comentando nos fóruns sobre o tal do combate veicular e a dublagem completa. Pois bem, depois de boas horas jogando – e encarando uns bugs pelo caminho – dá pra ter uma ideia bem clara do que esse jogo entrega. A proposta é ambiciosa: misturar CRPG com diálogos no estilo Disco Elysium (aquela parada de rolagem de dados e testes de perícia) e colocar tudo dentro de um mundo onde você dirige e customiza veículos de combate. Parece estranho? É, mas funciona em partes.

Gráficos e Direção de Arte
Visualmente, Aether & Iron acerta bastante. A direção de arte tem personalidade, com cenários que misturam um estilo meio steampunk com um pós-apocalipse suave – não é aquele mundo destruído e cinza, sabe? Tem cor, tem contraste. Os personagens são bem desenhados, com expressões que carregam a narrativa nos momentos de diálogo. Dá pra ver que houve cuidado com as ilustrações dos eventos e com a interface, que é limpa, embora um pouco confusa em certos momentos – principalmente na tela de equipamento dos veículos, mas vamos chegar lá.
O problema fica por conta da otimização. Em certas telas, como na troca de peças dos carros, o jogo engasga. Não é algo que quebre a experiência, mas incomoda. Além disso, ao sair do jogo pelo menu principal, tive alguns crashes e lentidão. Nada que um patch não resolva, mas considerando que o jogo já recebeu correções, ainda rola uns tropeços.
Som e Dublagem
Agora, se tem uma coisa que surpreende em Aether & Iron é a dublagem. O jogo é completamente dublado em inglês – e não é meia boca não. Os atores mandam bem, os personagens têm personalidade vocal, e isso eleva muito a imersão. Tem linha pra caramba gravada, o que é raro até em jogo AAA hoje em dia. Por outro lado, tem quem prefira mais texto e menos voz, principalmente porque a dublagem acaba limitando a quantidade de diálogo. É um trade-off: você ganha em atuação, mas perde em volume de opções e ramificações. Pra quem gosta de ler e imaginar a entonação, pode sentir falta.
Os efeitos sonoros dos combates são sólidos – o barulho dos motores, os disparos e as colisões têm peso. A trilha sonora cumpre o papel, mas não espere nada que vá ficar na sua cabeça depois de desligar o jogo. É funcional, cria clima, mas não brilha.

Jogabilidade – O Tal do Combate Veicular
Aqui é o ponto mais divisivo. Aether & Iron aposta todas as fichas no combate com veículos, e no começo parece realmente promissor. É um sistema tático por turnos onde posicionamento e movimento importam pra caramba. Você não só atira, mas também usa o próprio veículo para abalroar, se proteger atrás de cobertura e gerenciar peso, armas e resistências. No início, é divertido e desafiador na medida certa.
Só que a curva de dificuldade sobe de forma abrupta. O primeiro chefe, por exemplo, é um teste de paciência porque seu carro ainda é fraco, as armas são limitadas e você não tem muitos pontos na árvore de habilidade. Alguns jogadores vão morrer várias vezes até aprender a combinar os equipamentos certos. E não tem campo de treino pra testar builds – você precisa aprender na raça, o que pode frustrar.
Outro ponto: o sistema de customização é legal no papel, mas a interface atrapalha. Pra comprar uma peça, você vai numa tela. Pra equipar, precisa ter espaço no bagageiro do veículo (sim, limite de peso). Depois vai em outra tela para montar de fato. E aí descobre que a peça não encaixa ou é pesada demais. Dá pra se acostumar, mas é desnecessariamente confuso. Uma lista mostrando claramente o que vai em qual slot faria milagres.
As habilidades da árvore têm desbalanceamento. Alguns perks são claramente mais fortes que outros, e parece que faltou uma árvore específica para veículos pesados. O sistema de resistência a dano também é meio estranho: as armaduras que protegem contra um tipo específico de dano são tão pesadas que raramente compensa usá-las, a menos que você saiba exatamente qual o próximo inimigo – e isso você não sabe.
Um problema mais sério: os saves estão sumindo. O jogo tem autosave frequente (cerca de 2 em 2 minutos), então você não perde muito progresso, mas é chato. E tem bugs de progressão. Por exemplo, em uma missão secundária, entrar no local certo já falhava a tarefa automaticamente – sem chance de resolver. Outro bug: recrutar um certo companheiro chamado Luca exige um reload do autosave da área, senão o diálogo não dispara. E no começo do jogo, uma missão de sair da ilha inicial pode travar se você não fizer um esquema de sair e voltar da adega pra forçar o diálogo com o personagem Krez. Nada que quebre o jogo completamente, mas são tropeços que tiram o brilho.
História e Escolhas
A narrativa de Aether & Iron é o que segura o pacote. A escrita é acima da média, os personagens são bem construídos e o mundo tem personalidade. É uma história em três atos que funciona bem até o final – embora o terceiro ato seja claramente mais fraco que os dois primeiros. O final fica em aberto, o que pode ser proposital, mas dado o nível de poder que você alcança, fica difícil imaginar uma continuação com o mesmo elenco.

Agora, a promessa de que “suas decisões afetam a trama” é verdade apenas até certo ponto. O jogo é mais linear do que parece. As escolhas geram consequências imediatas – um personagem morre, uma facção fica irritada, você perde acesso a um item – mas não há grandes ramificações que mudem o rumo da história principal. É mais um efeito localizado. Pra quem espera algo no nível de um Disco Elysium ou Fallout: New Vegas, pode se decepcionar. Não há romance com personagens (algo que alguns jogadores sentem falta), e o foco é bem mais na ação e nos combates do que em relacionamentos.
O tempo de jogo é justo pelo preço. Em cerca de 10 horas você chega na metade, e uma primeira campanha completa deve girar em torno de 20 horas. Rejogabilidade existe, especialmente para testar builds diferentes de veículos, mas dificilmente alguém vai querer fazer mais de duas ou três runs, até porque a linearidade reduz o fator novidade.
Conclusão – Recomendo?
Olha, Aether & Iron é um jogo sólido, mas não sem defeitos. Ele acerta em cheio no carisma – a dublagem, a arte e a escrita seguram o player mesmo quando o combate frustra ou os bugs aparecem. O sistema de luta veicular é original e divertido quando engrena, mas a falta de um campo de teste e alguns picos de dificuldade mal calibrados tiram pontos. A interface de customização precisa de um remake urgente, e os problemas com save sumindo e missões travando são chatinhos demais pra ignorar.
Dito isso, pelo preço cobrado (na faixa de um indie médio), vale o investimento pra quem curte RPG tático com uma pegada diferente. Se você gosta de Disco Elysium mas quer algo menos denso e com mais ação, ou se curte jogos de veículos customizáveis com estratégia, Aether & Iron vai te entreter por boas 15 a 20 horas. Agora, se você não tem paciência para interfaces mal feitas, bugs intermitentes e uma história linear apesar das aparências, melhor esperar uns patches ou uma promoção.
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