Falar sobre Akatori é, para mim, um misto de realização e certa frustração, mas vamos por partes. São raros os jogos que conseguem gerar uma expectativa tão grande, principalmente no nicho dos Metroidvanias, um gênero que já foi saturado por tantas obras-primas quanto por imitações esquecíveis. A espera por Akatori, para muitos, incluindo alguns amigos próximos, foi longa. Alguns colocaram o jogo na wishlist da Steam lá em 2021 e passaram anos olhando para aquela data de lançamento incerta, sempre se perguntando se o jogo seria adiado ou se, quando finalmente chegasse, estaria a altura das promessas. Para mim, que não sou um grande fã declarado do gênero, a abordagem de Akatori foi uma surpresa. Ainda mais por vir carregado de uma identidade visual forte, uma pixel art que nos primeiros segundos já fisga o olhar, e uma trilha sonora que te coloca no clima desde o menu inicial. Mas o que realmente importa é se essa experiência toda funciona, e para isso precisamos destrinchar o jogo em seus aspectos fundamentais, sem paixões exageradas, apenas com o olhar técnico que uma boa análise pede.

A primeira coisa que qualquer um que inicia Akatori percebe é o capricho na parte visual. Não é exagero falar que este é um dos jogos 2.5D mais bonitos dos últimos anos. O jogo utiliza um pixel art refinado, com uma paleta de cores que varia drasticamente entre as zonas, passando por minas sombrias com tons terrosos e opressivos, florestas vibrantes onde o verde parece quase pulsar na tela, até picos de montanhas cobertos por uma neblina que esconde detalhes da arquitetura antiga. Há uma profundidade de campo muito bem trabalhada que dá vida aos cenários, fazendo você sentir que aquele mundo é maior do que apenas os corredores que você está percorrendo. O trabalho dos desenvolvedores em cada pequeno pedaço do mapa é visível, e é difícil não parar por alguns segundos só para admirar um fundo específico, mesmo que os inimigos estejam te cercando e tentando reduzir sua barra de vida a pó. Se tem uma coisa que a equipe de arte acertou em cheio foi na construção de uma atmosfera que é, ao mesmo tempo, convidativa e hostil. Os personagens são bem desenhados, a protagonista tem uma silhueta fácil de identificar em meio ao caos das batalhas, e os chefes, bem, eles são um espetáculo a parte, com designs que mesclam criaturas grotescas e elementos quase divinos.
No quesito sonoro, a experiência de Akatori é um pouco mais irregular, mas ainda muito positiva. A trilha sonora (OST) cumpre bem o seu papel de imersão. Quando você está explorando uma área mais calma, as músicas são melódicas e passam uma sensação de contemplação, quase como se a trilha estivesse contando uma história paralela a que você está vivenciando. Em contrapartida, nas áreas mais movimentadas e durante os confrontos, a música acelera e te coloca em estado de alerta. Ainda assim, sinto que faltou um pouco mais de peso em alguns dos primeiros chefes. Em determinados momentos, a música de batalha parece não acompanhar a intensidade do que está acontecendo na tela, deixando o combate um pouco mais frio do que deveria. É um detalhe, mas num jogo onde a adrenalina é um componente crucial, a falta de um tema mais épico para aqueles primeiros obstáculos pode ser sentida. Por outro lado, os efeitos sonoros são precisos, desde o corte da espada, que tem um som agudo e satisfatório, até os grunhidos dos inimigos e o barulho dos projéteis. É um pacote que, no geral, agrada, mas que poderia ter sido mais ousado em certos momentos.
Agora chegamos na parte que realmente divide opiniões e define o destino de Akatori no coração dos jogadores: a jogabilidade. E aqui, é inevitável fazer uma comparação, mesmo que indireta, com o gênero Soulslike, que claramente serviu de inspiração para muitas das mecânicas aqui implementadas. O sistema de combate é, de fato, muito fluido e te dá uma liberdade considerável para criar seus próprios combos. Você tem um medidor de carga, que é consumido para ataques mais fortes e combos especiais, e a variedade de movimentos que podem ser desbloqueados ao longo da campanha é grande: ataques aéreos, investidas, golpes que arremessam inimigos para o alto. A sensação ao executar uma sequência bem-sucedida é realmente recompensadora, principalmente quando você consegue usar o cenário a seu favor, arremessando inimigos uns contra os outros. A liberdade de criação de combos é um dos maiores acertos do jogo, dando margem para jogadores mais criativos se destacarem, enquanto jogadores mais casuais podem sobreviver com ataques básicos e o famoso “rolar para desviar”.

O problema, no entanto, reside no balanceamento de dificuldade e na exploração, que é o coração de qualquer Metroidvania que se preze. Para começar, a curva de dificuldade do jogo tem um pico agressivo logo nas primeiras horas. Jogando no modo “suffering” (o segundo mais difícil), inimigos comuns conseguem tirar metade da sua vida com um único golpe, e há inimigos específicos, como aqueles malditos insetos que saem de locais inesperados, que podem literalmente acabar com sua run em segundos se você não estiver prestando total atenção. Isso não é necessariamente um defeito, já que muitos jogadores buscam exatamente esse desafio, mas para outros, pode ser um obstáculo frustrante que atrapalha a fluidez da progressão. Conforme você avança e encontra itens de aumento de HP, a situação melhora, mas a sensação de que um erro mínimo pode te custar uma ida ao último checkpoint persiste até o fim. É uma escolha de design clara, que agradará aos fãs do gênero, mas que pode espantar novatos.
Falando em exploração, aqui está um dos pontos mais criticados de Akatori. O jogo promete um mundo interconectado com portais que ligam diferentes biomas, e isso ele entrega com maestria. Você está andando em uma mina e, de repente, um portal te leva para um pico de montanha, e dali você vê um caminho que volta para a floresta inicial. Isso é ótimo e dá aquela sensação de mundo vivo. O problema, para mim e para muitos outros, foi a falta de recompensas para a curiosidade do jogador. Em Metroidvanias clássicos, a exploração é recompensada com itens de status, novas habilidades ou até mesmo segredos da história. Em Akatori, a moeda do jogo (os cristais) só serve para comprar poções em lojas específicas, o que tira totalmente o propósito de matar inimigos que não estão no seu caminho direto, já que você não precisa de dinheiro para mais nada. Além disso, as passagens secretas que você encontra muitas vezes levam a becos sem saída ou a salas vazias, sem nenhuma recompensa significativa. A sensação que fica é que você está “perdendo tempo” ao explorar, ao invés de ser incentivado por isso. Jogar Akatori exige que você aceite a jornada linear interrompida por essas áreas interconectadas, mas a ausência de recompensas de exploração, como aumento de status ou novas habilidades escondidas, é uma falha significativa para o gênero. E para piorar, alguns aspectos da localização para o inglês (e para o português, em alguns textos) deixam a desejar, com diálogos que soam confusos, como se tivessem sido traduzidos de forma literal sem um polimento final. Isso não quebra o jogo, mas tira um pouco do brilho da narrativa, que por sinal, é legalzinha.
A história de Akatori, resumidamente, acompanha uma garota que trabalha em um mosteiro e encontra um pássaro místico chamado Akatori. Juntos, eles embarcam em uma jornada para combater a corrupção âmbar que assola o mundo. A premissa é simples e funciona como um bom gancho, e os diálogos tem um carisma próprio, com alguns momentos genuinamente engraçados. O jogo tenta criar um laço entre a protagonista e a ave, e em certos momentos isso funciona, mas a confusão da localização e a narrativa um tanto quanto fragmentada (comum em jogos do gênero) podem deixar o jogador se perguntando “o que diabos está acontecendo?” em várias partes. Há uma tentativa de criar uma mitologia em torno do pássaro e da corrupção, e isso é enriquecedor, mas falta um fio condutor mais claro para quem não está disposto a ler cada pedaço de lore encontrado nos cenários.

Os chefes de Akatori são, sem dúvida, um dos pontos altos. Cada um é único, com um conjunto de ataques específicos, padrões de movimento e designs de tirar o fôlego. Eles oferecem um desafio justo, que exige que você aprenda os padrões e saiba quando atacar e quando se defender. Não é um joguinho onde você pode sair batendo desesperadamente e esperar vencer; é necessário estratégia, paciência e, claro, bons reflexos. A variedade é grande, e cada chefe parece ter sido pensado para testar uma habilidade específica que você adquiriu até aquele momento. Alguns são mais focados em esquivas, outros em ataques aéreos, e isso mantém a gameplay fresca e evita a monotonia. No fim das contas, e olhando para todos esses pontos, a pergunta que fica é: Akatori é recomendável? Se você é um fã de Metroidvania, principalmente aqueles com uma pegada mais desafiadora inspirada nos Souls, a resposta é um sim categórico. Se você gosta de pixel art bem feita e de uma atmosfera envolvente, também é um prato cheio. Porém, se você busca um jogo com uma exploração recompensadora, com segredos espalhados pelo mapa que te incentivem a sair do caminho principal, talvez Akatori te frustre um pouco, porque a falta de recompensas para a exploração é um ponto que pesa bastante. A ausência de bugs ou problemas técnicos durante a jogatina é um ponto extremamente positivo, mostrando um trabalho de polimento que muitas grandes produtoras não conseguem entregar.
O jogo acerta em cheio no que se propõe a fazer: um combate fluido, visual deslumbrante e uma dificuldade que testa seus limites. Mas peca na exploração e no balanceamento inicial, que pode ser brutal até para jogadores experientes. Ele não é um jogo perfeito, e longe de ser o melhor Metroidvania dos últimos 10 anos, mas é, sem dúvida, uma experiência sólida e que merece sua atenção. É um jogo que, apesar dos seus problemas, me prendeu por horas e me fez querer voltar para tentar derrotar aquele chefe que me matou 20 vezes seguidas. Então, se você está pensando em comprar, saiba que vai encarar um jogo difícil, com uma história um pouco confusa, mas com um coração enorme e uma qualidade técnica impecável. É uma joia do gênero? Talvez não para todos, mas para muitos, vai ser sim. Vale a pena a experiência, mesmo com seus tropeços. Eu pessoalmente recomendo, mas vá preparado para sofrer e, principalmente, para ignorar a vontade de explorar cada canto, porque a recompensa por isso nem sempre está lá.
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