Quando se fala em roguelites, é fácil cair na mesmice. Vampire Survivors criou uma fórmula e uma legião de cópias, mas de vez em quando aparece um jogo que pega essa base e constrói em cima dela algo genuinamente novo. Esse é o caso de BALL x PIT, um projeto do Kenny Sun (com uma pequena equipe) e publicado pela Devolver Digital que chegou em outubro de 2025 e, pra ser honesto, tem consumido minhas noites de uma forma que eu não esperava . A proposta é simples no papel: misturar a física do bom e velho Arkanoid com a progressão de um roguelite e ainda jogar uma pitada de estratégia de construção. Parece loucura, e talvez seja, mas funciona.
A Descida ao Caos Visual e Sonoro
Vamos começar pelo aspecto visual, que é a primeira coisa que salta aos olhos (ou deveria). BALL x PIT aposta num estilo pixel art com uma pegada 2.5D que me lembrou bastante títulos como Loop Hero . Os cenários são escuros, com uma estética gótica meio suja, mas os efeitos das habilidades e dos inimigos preenchem a tela com cores vibrantes. A direção de arte é acertada, criando uma atmosfera de ruínas antigas, de um tal de “Ballbylon” (trocadilho infame com Babilônia) que foi engolido por uma cratera . É bonito sem ser exagerado, e a variedade de biomas, embora não seja enorme, tem personalidade própria, cada um com sua paleta de cores e tipos de inimigos distintos .

Agora, o que realmente me pegou de surpresa foi o áudio. A trilha sonora, composta por Amos Roddy, é simplesmente fantástica para um jogo desse porte. São sintetizadores que criam uma tensão crescente, batidas eletrônicas que aceleram durante as hordas e, em alguns momentos, coros épicos que fazem você se sentir enfrentando algo realmente grandioso lá no fundo do poço . É o tipo de som que gruda na cabeça e dita o ritmo dos seus dedos no controle. Os efeitos sonoros também são muito bem trabalhados — cada “thwack” da bola acertando um inimigo ou cada “ping” do ricochete são satisfatórios e contribuem para aquela sensação de caos controlado .
Jogabilidade: Muito Mais que Apenas Bolas
E por falar em caos, vamos ao que interessa: a jogabilidade. A premissa é você controlar um herói que desce automaticamente por corredores enquanto hordas de inimigos vêm de cima. Seu ataque primário são bolas que você atira e que ficam ricocheteando nas paredes e nos adversários . Até aí, parece um twin-stick shooter preguiçoso, mas a profundidade aparece rápido. Conforme você derrota inimigos, coleta cristais de experiência e sobe de nível, podendo escolher entre novos tipos de bolas (fogo, gelo, veneno, sangramento, etc.) ou aprimoramentos passivos .
O grande trunfo, no entanto, é o sistema de fusão. Durante as runs, você encontra itens que permitem combinar duas bolas que você já possui. Isso não só libera espaço no seu inventário como também cria um novo projétil com as propriedades de ambos . E não para por aí: certas combinações específicas geram uma “Evolução”, criando uma bola completamente nova e absurdamente poderosa, como juntar fogo e gelo para criar chamas que congelam ou algo do tipo . Essa mecânica transforma cada partida em uma verdadeira caça às combinações. Você começa fraco e, de repente, está com a tela tomada por lasers, bolas de fogo e insetos mágicos, tudo ricocheteando numa sinfonia de destruição .

Mas não é só porrada. O diferencial do jogo é a gestão da base. Entre um mergulho e outro, você retorna a um acampamento que precisa ser reconstruído. Usando recursos e ouro coletados nas batalhas, você constrói fazendas, serrarias e casas em um grid . Essas construções geram recursos passivos, desbloqueiam novos heróis ou dão bônus permanentes. A parte engraçada é que até a “construção” é feita com física: você literalmente atira seus heróis contra os materiais de construção para que eles, ricocheteando, ergam os prédios . É uma forma criativa de amarrar as duas pontas do jogo e impedir que a parte de estratégia se torne entediante.
Uma História Rasa, Mas Funcional
Sobre a narrativa… bem, ela existe. O jogo apresenta a queda da cidade de Ballbylon por um meteoro e a formação de um poço sem fim cheio de monstros. Você é um aventureiro descendo atrás de fortuna e respostas . É básico, propositalmente genérico, e serve apenas como um cabide para pendurar a jogabilidade. Não há grandes reviravoltas ou diálogos profundos. A história é contada através de pequenos textos e do visual dos cenários, e honestamente, num jogo desses, isso é mais do que suficiente. O foco aqui é 100% na ação e na progressão, e tentar adicionar uma história complexa provavelmente só atrapalharia o ritmo.
Vale a Pena Descer Nesse Buraco?
Partindo para a parte técnica da recomendação, precisamos pesar os prós e contras. Tecnicamente, o jogo é muito competente. Ele roda liso, mesmo com a tela absolutamente lotada de projéteis e inimigos . A curva de aprendizado é bem dosada, e a sensação de evolução é constante. A cada run você desbloqueia algo, seja um novo personagem, um novo tipo de bola, ou um upgrade para a cidade, o que te prende num ciclo vicioso de “só mais uma partida” .

Por outro lado, é preciso apontar algumas arestas. A variedade de inimigos, embora visualmente distinta, não se traduz em uma grande variação de comportamento. Muitos deles atacam de forma parecida, e os padrões de batalha contra chefes, embora desafiadores no início, podem se tornar repetitivos depois de algumas horas . Além disso, a progressão na cidade, embora criativa, pode exigir um certo grind, e a necessidade de ficar rearranjando construções no grid pode não agradar a todos, parendo um pouco um trampo . Outro ponto é a claridade visual; em certos momentos de caos extremo, fica difícil distinguir sua própria bola de cura de um projétil inimigo venenoso, já que ambos usam tons de verde .
Considerando a análise fria dos fatos, BALL x PIT é um jogo extremamente competente que entrega exatamente o que promete: uma mistura inovadora e viciante de gêneros. Os sistemas de fusão de bolas e construção de base são o ponto alto, garantindo uma rejogabilidade imensa pelo preço de lançamento (cerca de R$ 75 ou US$ 15) . Os gráficos são estilosos e a trilha sonora é um espetáculo a parte.
As falhas existem, como a repetição de inimigos e um ou outro deslize de interface, mas elas não chegam a estragar a experiencia geral. Portanto, baseado na analise tecnica dos seus atributos e no que ele se propoe a fazer, a recomendação é sim, positiva. Se você é fã de Vampire Survivors, Brotato, ou simplesmente quer um jogo para desligar o cerebro e se perder por horas em um loop de gameplay satisfatório, BALL x PIT é uma adição mais que bem vinda a sua biblioteca. Só não esqueça de olhar as horas, porque quando você menos perceber, já passou da meia noite e o tal do poço continua te chamando pra mais uma descida.
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