O início de ano sempre traz surpresas no mundo dos jogos independentes, e MIO: Memories in Orbit chega para ocupar um espaço de destaque logo de cara. Desenvolvido pelo estúdio francês Douze Dixièmes (os mesmos de Shady Part of Me) e publicado pela Focus Entertainment, o jogo chegou dia 20 de janeiro e já está dando o que falar entre os fâs do genero metroidvania. A proposta é ambiciosa: entregar uma experiência com uma estética artística refinadíssima, enquanto mantém a pegada de exploração e combate que exige dedicação do jogador. Mas será que o equilíbrio entre a arte e a diversão funcionou? Vamos mergulhar nessa review.
Gráficos e Direção de Arte: Um Caderno de Esboços Vivo
A primeira coisa que salta aos olhos em MIO: Memories in Orbit é, sem dúvida, a direção de arte. O jogo apresenta um visual que parece ter sido pintado a mão, com um estilo que lembra aquarela sobre um esboço de lápis, criando uma textura única que poucos jogos conseguem reproduzir com tanta fidelidade . O mais impressionante é que esse efeito “handdrawn” (desenhado a mão) não é apenas uma textura aplicada, mas sim uma construção feita em um motor gráfico proprietário da equipe, o que permitiu um controle absoluto sobre como as luzes e sombras interagem com o cenário .

A protagonista, Mio, é um pequeno robô com longas “mechas” que se iluminam, e essa luz interage com o ambiente de forma dinâmica, destacando as sombras projetadas nos cenários . A “Arca” (ou The Vessel), nave espacial decadente que serve de palco para a aventura, é dividida em biomas que vão de uma metrópole industrial a jardins orgânicos e congelados, cada um com uma paleta de cores pastel distinta que reforça a mudança de atmosfera sem perder a coesão visual . É como se o jogador estivesse virando as páginas de uma graphic novel europeia de ficção científica a cada nova área descoberta, com traços que remetem a artistas como Moebius .
Trilha Sonora e Ambientação
Se a arte é o corpo do jogo, o som é definitivamente a alma. A trilha sonora de MIO: Memories in Orbit é um acerto absoluto. Misturando batidas lo-fi com cantos líricos e reverberações, a música cria uma sensação de melancolia e mistério que casa perfeitamente com a proposta de explorar uma nave espacial abandonada e cheia de segredos .
Em vez de usar melodias épicas e invasivas, o jogo aposta em uma ambientação sonora mais contida. Em certos momentos, os ecos e o silêncio predominam, quebrados apenas pelo som mecânico dos passos de Mio ou pelo zumbido distante de uma máquina. Essa abordagem minimalista aumenta a tensão nas horas certas, principalmente durante as lutas contra chefes, onde a música se intensifica para dar o tom de urgência, mas sem nunca perder a qualidade etérea que define a identidade do jogo . É uma daquelas trilhas que você provavelmente vai procurar no Spotify depois de terminar a gameplay.

Jogabilidade: Entre a Fluidez e a Frustração
Aqui é onde MIO: Memories in Orbit mostra suas duas faces. A jogabilidade é fluida e a movimentação de Mio é um dos pontos mais altos. Ela é incrivelmente ágil, com uma física “aérea” que lembra títulos como Ori and the Blind Forest. Você começa com habilidades básicas, como um combo de três golpes e um pulo duplo, mas conforme avança, desbloqueia movimentos que tornam a exploração um verdadeiro playground, incluindo ganchos e escalada em paredes e tetos .
No entanto, não se engane pela estética fofa. O jogo é difícil. Muitas vezes, as plataformas exigem uma precisão milimétrica, e os checkpoints podem ser implacavelmente distantes . Há momentos em que a curva de dificuldade parece menos um desafio e mais uma provação, com sessões de plataforma que beiram o infernal e inimigos comuns que dão trabalho demais para serem eliminados .
Um diferencial interessante é o sistema de modificadores (mods). Eles funcionam como equipamentos que alteram estatísticas e habilidades, utilizando um sistema de “peso” ou slots. Quer ver a barra de vida do inimigo? Vai ter que sacrificar um espaço que poderia ser usado para aumentar o ataque . Essa customização permite que o jogador ajuste a experiência ao seu estilo, seja priorizando combate ou exploração . Além disso, o jogo oferece opções de acessibilidade bem vindas, como a “Cura no Chão” (recuperar vida ao ficar parado) ou a “Erosão” (chefes ficam mais fracos a cada tentativa), que amenizam a experiência sem descaracterizar o desafio proposto .
História: Memórias em uma Nave Moribunda
A narrativa é contada de forma ambiental, e o jogador precisa estar atento aos detalhes. Acordamos como Mio, uma androide sem memórias, em uma nave colossal que está desmoronando. O objetivo principal é encontrar as seis “Pérolas”, que são na verdade as inteligências artificiais responsáveis por manter as funções vitais da Arca .
A história lida com temas de memória, perda e o que significa ter uma alma, especialmente em corpos mecânicos . Embora existam personagens secundários que ajudam a guiar a trama, como a entidade Shii, o foco está mais na exploração do que no desenvolvimento de laços afetivos profundos . Para alguns, isso pode passar a impressão de que a história é apenas um pano de fundo, uma desculpa para a ação . No entanto, para quem gosta de juntar as peças, os diários de bordo e os cenários contam uma história coerente e surpreendentemente emocionante sobre os viajantes que habitaram aquele lugar.

Conclusão: Vale a pena jogar MIO: Memories in Orbit?
MIO: Memories in Orbit é um prato cheio para os amantes do gênero metroidvania que buscam uma nova obsessão. A direção de arte é de cair o queixo, a trilha sonora é impecável e a movimentação, quando você pega o jeito, é gratificante. É um jogo construído com um cuidado artístico que transparece em cada tela.
Por outro lado, é um título que não tem medo de ser punitivo, e essa pode ser uma barreira de entrada. A sensação de recompensa ao superar um chefe ou uma sala de plataforma difícil é enorme, mas o caminho até lá pode ser mais cansativo do que divertido para jogadores casuais.
Eu recomendo o jogo, mas com ressalvas. Se você é um veterano em busca de um novo Hollow Knight para passar horas explorando e morrendo, MIO: Memories in Orbit vai te conquistar facilmente. Agora, se a sua paciência para backtracking infinito e fases de precisão cirúrgica é curta, talvez seja interessante dar uma olhada em gameplays antes de comprar. Para os corajosos que embarcarem nessa, a recompensa é uma das experiências visuais mais bonitas e uma evolução de personagem satisfatória que o gênero pode oferecer.
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