O mercado de remasters tá cada vez mais aquecido, e quando ouvi falar que os dois jogos da franquia Anima iam ganhar uma versão reformulada pra plataformas modernas, confesso que fiquei curioso. Afinal, trazer de volta títulos que passaram meio despercebidos lá em 2016 e 2018 é sempre uma aposta arriscada. Será que esse pacote consegue entregar uma experiência que justifique revisitar (ou conhecer pela primeira vez) o universo de Gaia? Vamos analisar os aspectos técnicos e ver se esse remaster merece sua atenção.
Apresentação Visual: Um Upgrade Discreto Mas Eficiente
Logo de cara, o que chama atenção no Anima Gate of Memories I&II Remaster é o trabalho feito na parte visual. Os desenvolvedores da Anima Project não prometeram milagres, e realmente não é uma reconstrução completa do zero como alguns remasters fazem, mas dá pra perceber o carinho nos detalhes. As texturas receberam uma melhora notável, especialmente nos ambientes da Torre de Arcane, que agora apresentam mais definição e menos aquela aparência “borrada” que era comum nos originais.
O design artístico sempre foi um ponto forte da série, inspirado claramente no RPG de mesa Anima: Beyond Fantasy, e isso continua brilhando aqui. Os cenários construídos a partir de memórias têm essa característica onírica e surrealista que funciona muito bem. Cada localização dentro da torre possui uma identidade visual própria, desde áreas mais góticas e sombrias até espaços mais coloridos e fantasiosos. A iluminação foi revisada e ficou mais dinâmica, criando atmosferas interessantes durante as explorações.

Os modelos dos personagens também foram polidos. A Portadora de Calamidades e Ergo (aquele livro falante que é o parceiro da protagonista) ganharam mais polígonos e animações mais fluidas. O mesmo vale pro Nameless, o protagonista imortal da segunda história. As animações de combate parecem menos travadas do que nas versões originais, embora ainda exista uma certa rigidez em alguns momentos de transição entre golpes. Não é nada que quebre a imersão, mas jogadores acostumados com hack’n’slash mais modernos podem sentir essa diferença.
A taxa de quadros foi estabilizada nas plataformas atuais, rodando consistentemente a 60fps na maioria das situações. Tem alguns momentos de queda quando a tela enche de efeitos visuais e inimigos, principalmente em batalhas mais caóticas, mas nada que comprometa seriamente a experiência. A resolução também foi aumentada, e no PlayStation 5 e Xbox Series X o jogo roda em 4K nativo, o que ajuda bastante na clareza da imagem.
Áudio: Trilha Sonora Atmosférica e Dublagem Funcional
A trilha sonora é um dos elementos que sempre funcionou bem nos jogos da franquia Anima, e no remaster ela continua fazendo seu trabalho com competência. As composições orquestrais criam uma ambientação fantástica que combina perfeitamente com a proposta do jogo. Tem momentos épicos durante as batalhas contra chefes, com músicas que aceleram o coração, e também faixas mais introspectivas nas áreas de exploração que ajudam a construir aquela sensação de mistério.
Os efeitos sonoros foram remasterizados também, com impactos de golpes soando mais contundentes e magias tendo mais presença. O “dual system” (aquele sistema onde você alterna entre personagens no meio da luta) ficou mais satisfatório sonoramente falando, com cada troca sendo acompanhada de um efeito distinto que ajuda a sentir o ritmo do combate. Explosões, sons ambientes e até os barulhos dos passos dos personagens ganharam mais camadas, tornando o conjunto mais imersivo.
A dublagem em inglês se mantém igual às versões originais, com performances variáveis. Alguns personagens têm interpretações sólidas que transmitem bem a personalidade, enquanto outros soam um tanto genéricos. Ergo, o livro falante, às vezes peca pelo excesso de falas repetitivas, mas isso é mais uma questão de roteiro do que de performance vocal propriamente dita. Vale mencionar que o jogo oferece legendas em vários idiomas, incluindo português brasileiro, o que facilita bastante pra quem prefere jogar legendado.

Jogabilidade: Hack’n’Slash com Camadas de RPG
É aqui que o Anima Gate of Memories I&II Remaster mostra sua proposta principal. Trata-se de um action RPG em terceira pessoa que mescla combate em tempo real com elementos tradicionais de progressão de personagem. O sistema de batalha foi rebalanceado nessa versão remasterizada, e isso faz diferença na fluidez das lutas.
O combate funciona através de uma mecânica de combos que exige timing e conhecimento dos padrões dos inimigos. Não é um simples apertar botões aleatoriamente até o adversário cair. Cada personagem tem um conjunto extenso de habilidades especiais que podem ser desenvolvidas e customizadas conforme avança no jogo, bem ao estilo de um RPG tradicional. A árvore de habilidades é relativamente profunda, permitindo builds diferentes dependendo do seu estilo de jogo.
Uma das mecânicas mais interessantes é o “Dual System”, presente no primeiro jogo. Você pode alternar instantâneamente entre a Portadora e Ergo durante o combate, encadeando ataques devastadores e criando sinergias entre as habilidades de ambos. Isso adiciona uma camada estratégica às lutas, principalmente contra chefes mais difíceis que exigem adaptação constante. Já no segundo jogo, com o Nameless, temos a “Mão de Tanathos”, que permite ao personagem se fundir temporariamente com a própria Morte, potencializando suas capacidades de forma absurda.
O refinamento na jogabilidade é perceptível quando comparado com os originais. Os controles respondem melhor, a câmera não trava tanto em cantos apertados (embora ainda seja um problema ocasional), e o sistema de target lock ficou mais confiável. A progressão de dificuldade também foi revista, com alguns picos de dificuldade sendo suavizados sem tornar o jogo fácil demais.
A estrutura do mundo é interconectada, lembrando vagamente um metroidvania. Você explora a Torre de Arcane descobrindo seus segredos, desbloqueando novas áreas conforme adquire habilidades e resolve puzzles ambientais. Não são puzzles extremamente complexos, mas quebram o ritmo do combate de forma agradável. A exploração é recompensadora, com vários itens colecionáveis e documentos que expandem o lore do universo.

História: Narrativas Entrelaçadas e Escolhas Importantes
A narrativa do Anima Gate of Memories I&II Remaster é um dos seus maiores trunfos. O jogo traz duas histórias distintas mas conectadas, ambas explorando diferentes ângulos de uma guerra nas sombras que moldará o destino do mundo de Gaia. Na primeira aventura, acompanhamos a Portadora de Calamidades, uma garota sem memórias do passado que está ligada a Ergo, um monstro lendário preso em forma de livro. A segunda história segue o Nameless, uma alma imortal condenada a vagar pelo mundo eternamente.
O que impressiona é como essas narrativas se complementam. Eventos que parecem simples na primeira campanha ganham novos significados quando vistos pela perspectiva do Nameless. É um trabalho de storytelling que recompensa quem joga ambas as histórias até o fim. As escolhas que você faz ao longo da jornada têm impacto real no desenrolar dos acontecimentos, com múltiplos finais disponíveis dependendo das decisões tomadas.
O universo inspirado no RPG de mesa Anima: Beyond Fantasy traz um lore extenso e bem construído. Existem os Mensageiros do Fim, seres destinados a trazer o apocalipse, uma complexa hierarquia de facções místicas, e toda uma mitologia envolvendo entidades cósmicas. O jogo não tem medo de ser denso na apresentação desse conteúdo, com diálogos longos e documentos espalhados pelo mundo que revelam camadas adicionais da história.
Claro que essa abordagem não agrada todo mundo. Quem prefere narrativas mais diretas e cinematográficas pode achar o ritmo lento em certos momentos. Tem bastante texto pra ler e conversas pra absorver, o que exige paciência. Mas pra quem curte mundos bem construídos e aprecia lore detalhado, é um prato cheio. A tradução pra português brasileiro ajuda bastante na imersão, embora existam alguns termos que poderiam ter sido localizados de forma mais natural.
As cinemáticas foram mantidas praticamente iguais às versões originais, apenas com a melhora visual aplicada ao resto do jogo. Não são produções espetaculares em termos de animação facial ou movimentação de câmera, mas cumprem sua função de avançar a trama. O forte mesmo está nos diálogos e na construção gradual do mistério em torno da Torre de Arcane e dos verdadeiros objetivos das facções envolvidas no conflito.
Conteúdo e Duração
Uma coisa que não dá pra negar é que o Anima Gate of Memories I&II Remaster oferece bastante conteúdo. Estamos falando de dois jogos completos num pacote só, cada um com suas próprias campanhas extensas. Quem quiser ver tudo que o jogo tem a oferecer, incluindo os diferentes finais e o modo New Game+, vai facilmente ultrapassar as 40 horas de gameplay. É uma proposta generosa em termos de duração, especialmente considerando o preço do pacote.

O primeiro jogo é ligeiramente mais longo que o segundo, mas ambos oferecem uma jornada substancial. A estrutura não é totalmente linear, permitindo alguma liberdade na ordem em que você explora certas áreas e enfrenta desafios. Isso adiciona um pouco de rejogabilidade além dos múltiplos finais, já que você pode tomar caminhos diferentes em novas partidas.
Considerações Técnicas e Pequenos Problemas
Apesar dos melhoramentos, não dá pra dizer que o Anima Gate of Memories I&II Remaster é perfeito tecnicamente. Alguns bugs dos originais ainda aparecem esporadicamente, como quedas de personagens através do cenário em situações muito específicas ou inimigos que ocasionalmente ficam presos em paredes. Nada game-breaking, mas são pequenos incômodos que poderiam ter sido resolvidos.
A interface do usuário foi modernizada, mas ainda carrega alguns elementos que denunciam a origem dos jogos em meados da década passada. Os menus são funcionais mas não impressionam em termos de design. A navegação entre os diferentes sistemas (inventário, árvore de habilidades, mapa) poderia ser mais intuitiva, exigindo alguns cliques a mais do que seria ideal.
A camera, apesar de ter sido melhorada, ainda apresenta momentos problemáticos. Em combates em espaços fechados, ela às vezes se posiciona de forma desajeitada, dificultando ver o que está acontecendo. É possível ajustar manualmente na maioria das vezes, mas em situações de pressão isso pode resultar em dano desnecessário. Felizmente, esses momentos não são tão frequentes a ponto de arruinar a experiência.

Conclusão: Recomendo ou Não?
Depois de passar um bom tempo explorando a Torre de Arcane e vivenciando as jornadas da Portadora e do Nameless, dá pra ter uma visão clara do que é o Anima Gate of Memories I&II Remaster. Este é um pacote direcionado principalmente para dois públicos: fãs de action RPGs que curtem uma boa história com lore profundo, e pessoas que nunca jogaram os originais e querem conhecer essa franquia numa versão melhorada.
Pra quem já zerou os jogos originais e está pensando em revisitá-los, o remaster oferece melhorias visuais e de jogabilidade que tornam a experiência mais polida, mas não é uma transformação radical que justifique uma nova compra imediata. Agora, se você nunca teve contato com esses títulos, essa é definitivamente a melhor forma de experimentá-los. As correções no balanceamento de combate, os visuais aprimorados e a estabilização técnica fazem muita diferença.
Os gráficos, embora não sejam de última geração, apresentam um estilo artístico interessante e coeso que funciona bem com a proposta fantástica do universo. O áudio cumpre seu papel de forma competente, criando atmosfera sem ser espetacular. A jogabilidade é sólida dentro do que se propõe, misturando ação frenética com progressão de RPG de maneira satisfatória. E a história, com suas duas perspectivas entrelaçadas e escolhas significativas, é genuinamente envolvente pra quem tem paciência com narrativas mais densas.
É importante destacar que este não é um jogo pra todo mundo. Quem busca um hack’n’slash mais polido e moderno como Devil May Cry ou Bayonetta vai achar o combate um pouco rígido. Quem quer uma história mais cinematográfica e direta pode se cansar dos diálogos extensos. Mas pra quem aprecia RPGs de ação com profundidade mecânica e narrativa, especialmente fãs de títulos mais nichados e universos bem construídos, o Anima Gate of Memories I&II Remaster entrega uma experiência valiosa.
O preço de lançamento é justo considerando que são dois jogos completos com bastante conteúdo. A oferta de 10% nos primeiros dias torna ainda mais atrativo. Se você tá em dúvida, recomendo baixar a demo disponível na Steam pra ter uma noção do que esperar. Ela cobre os capítulos iniciais do primeiro jogo e o progresso pode ser transferido pra versão completa.
No final das contas, sim, eu recomendo o Anima Gate of Memories I&II Remaster. Não é uma obra-prima revolucionária, mas é um pacote honesto que traz duas aventuras interessantes numa versão melhorada pra quem quer explorar um universo fantástico menos conhecido. Se você curte RPGs de ação com lore profundo e não se importa com algumas arestas técnicas, vale dar uma chance pra essa jornada pela Torre de Arcane. Os Mensageiros do Fim aguardam sua chegada.
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